Algumas frases de William H. Gass

Há alguns anos li uma entrevista que o autor americano William H. Gass, falecido em 2017 aos 93 anos, deu à revista Publisher’s Weekly. Anotei algumas das frases, e desde então as li, reli e reli mais uma vez. Hoje as tenho quase como um mantra, um norte em minha vida. Não que eu as tenha seguido à risca; óbvio que não. Utopias são, no entanto, muito úteis para isso: para nos lembrar de como podemos ser melhores. E, nesse sentido, esses conselhos nunca falharam.

Seguem abaixo as frases no original e então a minha tradução livre:

Compel yourself to write several hours every day no matter how bad you feel. Eat well three times a day. Ceremoniously. Candles at dinner time. Habits like iron. They will serve as a reward for writing several hours every day no matter how awful you feel. Read the newspaper. It will make you properly angry about everything. Regularly.

Stay away from the machinery of the modern world. It will ruin your imagination. It will shape a heart break and make demands of their own kinds.

Try to remember that artists in these catastrophic times, along with the serious scientists, are the only salvation for us, if there is to be any. Be happy because no one is seeing what you do, no one is listening to you, no one really cares what may be achieved, but sometimes accidents happen and beauty is born.

Se obrigue a escrever várias horas por dia não importa o quão mal você se sinta. Faça, cerimoniosamente, três boas refeições ao dia. Jante à luz de velas. Mantenha hábitos de ferro. Eles servirão como recompensa por escrever várias horas todo dia independente do quão mal você esteja. Leia os jornais. Eles lhe deixarão adequadamente puto com tudo. Todo dia.

Se afaste do maquinário do mundo moderno. Ele arruinará a sua imaginação. Ele desenhará um coração partido e lhe fará demandas de seu próprio interesse.

Tente se lembrar de que, nesses tempos catastróficos, artistas, assim como os cientistas sérios, são a única salvação para nós, se é que há alguma. Fique alegre por ninguém estar vendo o que você faz, ninguém te escutar, ninguém à bem da verdade se importar com o que pode ser alcançado, mas às vezes acidentes acontecem e nasce algo de belo.

Relendo o conto “Júlia Nigri” cinco anos depois

Há 5 anos escrevi um conto, o mais longo que tinha finalizado até então, chamado Júlia Nigri. Está publicado aqui: (apesar da data de 2020 no post, o texto em si foi finalizado em 2017; deve ter sido então lido por não mais que cinco pessoas, ao que a publicação em 2020 deve ter acrescentado não mais que outras cinco).

Hoje percebo muitas falhas no texto, originárias tanto de menor experiência ao escrever como da eterna pressa em publicar. O cordão que une as partes da narrativa é excessivamente vago; a protagonista ausente no texto, que eu tentei traçar entre o realismo e o delírio, é inverossímil e até caricata; há um exibicionismo imaturo e pirotécnico na linguagem; o final não atinge quem lê como eu gostaria.

No entanto, há algo ali que acho que nunca abandonei nesses cinco anos. Deve ter sido o primeiro conto que, enfim, eu escrevi como gostaria de escrever, após quatro anos de tatear por diferentes registros, sotaques e gêneros. Um exercício contínuo de linguagem e estrutura que continuou na minha obra mais madura até agora, “Não Posso Reclamar” (

Hoje tento, aos poucos mas às vezes com alguns arranques, parir um romance. E se espero que a execução e, em consequência, o destino dele seja melhor que o de “Júlia Nigri”, há algo no Lealdo que o escreve hoje que vem sem escalas do Lealdo que em 2017 lutava contra as frases para parir aquele conto tão imperfeito — a tentativa de capturar linguagem oral num contexto literário; a polifonia; os experimentos com estruturas, essas criações tão cansadas; a ansiedade por uma utopia; a vontade enfim de dizer algo ao leitor que eu nem sei mesmo o que é e que necessito dizer sobretudo a mim mesmo.

An Afternoon in Terezín

Both men shared a cheap cigarette sent by Cvjetko’s family, directly from Sarajevo. The chief guard tried to withhold the gift. The prisoner promised that on the next delivery they would send wine to the German soldiers.

“Vaso. Have you noticed what day is today? Three years since we’ve been here.”

“Three years since we haven’t seen Gravo.”

“Do you think it’s true? That he lost his arm?”

“I don’t know, guess so. That right hand was so damn good. He will have to learn to shoot with the other the same way once he gets out.”

Cvjetko smiled. He waited for Vaso to return the cigarette. One of the guards shouted something in German, letting all on the patio know they had five minutes.

“You’re too hopeful. Trifko and Nedelijko are already gone. If Gavrilo really lost his arm, then it’s a matter of time for him. And for us too.”

“Gavro is not like us.”

“Heroes also die from tuberculosis, Vaso.”

“Have you ever heard him swear? His father never cursed. Nor drank.”

“I doubt he hasn’t cursed in these three full years. Maybe no one heard it. But he did.”

“Trifko was for some time in the cell beside his. He told me stories.”

“Trifko was mad.”

“Mad, yes, but he had ears. Gavro talked from his cell. Trifko sometimes answered, but Gavro wasn’t speaking to him. He spoke to himself, or to God.”

“And what did he say?”

“That the world is going to end.”

“Big news. The world is ending. Everything is a battlefield now. Jesus, we’re almost lucky we’re here inside.”

“There’s more. Trifko heard him saying that aircrafts carrying machine guns and bombs would murder all the troops. That when there weren’t soldiers living anymore, the war would end, and all the kings and presidents would march in a big parade in Paris.”

“Trifko was fucking mad. Gavro as well.”

“And he said that from each side of the parade men would sprout, small and starved. That each of these men would kneel and puke. That from each one’s stomach would flow away not food, but a handgun. That the kings would stare from their cars, paralysed like statues. That one would finally do the correct math: for each man, a king, for each king, a bullet.”

Cvetko finished the cigarette while fiddling with a worm between the fingers of his other hand.

“We are not going to leave, Vaso.”

The two men stood up and started walking towards their single cells. Whoever disrespected the limit would lose the right to leave for the patio, one hour each day. If Gavrilo ever left his cell at any moment, they never got to hear about it.

Gavrilo Princip and his co-conspirators were sent to the Terezín prison, currently in Czech Republic, after being accused of conspiracy and murder. Gavrilo shot down Archduke Franz Ferdinand, heir to the Austrian-Hungarian throne, and his wife Sophie, while they paraded through Saravejo in their car, on June 28th, 1914. This assassination is considered to be the trigger which overflew the tensions between the European nations, leading to the First World War.

[English translation of my short story “Uma Tarde em Terezín”]


Larissa knew the day had come when the last cat left town. It had been months since she began receiving the signs, which only she understood: the scent of sage rising from the manholes; the taste of iron in the fruits; the solar and lunar eclipses on the same month; the rats that overran the streets. She sat down to write, the way she liked, by hand. She knew her grandchildren said nobody used to do that anymore. She began with their names. She tore the notebook pages and thew the bits on the floor. Soon rats came to eat them. She thought about the school she went to, which had been long closed. The pages ended before the names and she stood up, leaving the rats which sprawled over her kitchen table devouring the notebook. With the pen still in hand, she squatted by the corner of the room, where the wall received no sunlight and was whiter. The act of writing fueled her memory, and the memory, her spite. She remembered her daughter, who she knew now called her senile. She drew her family tree, hurrying up with each branch while the rats devoured the previous one, chewing the bits of wall where her pen had just been. Some began eating away at the hem of her dress. More names: many neighbours, all of her lovers. The cashier who had winced at her teeth. Her dress was now rags, and the feet on her skin did no longer bother. Larissa recorded the name of each person, and wrote her daughter’s from ground to ceiling, so that no misdeed would be lost. By ten, moon turned dark once again. By eleven, power went down, and Larissa finally understood that in a lightless world there is no nudity. At a quarter before midnight, the rats started gnawing on her, starting by the feet. She smiled, and left a sole name for the end, which she whispered to the animal who bit her tongue away.

[English translation of my short story “Ninhada”]

As Perguntas

De todas as perguntas que já me fiz, talvez uma das mais perniciosas seja: ‘por que perguntar?’. Ou, noutra forma: ‘por que sempre perguntar?’. Ou, na forma em que ela me apareceu recentemente num exercício: ‘sempre ter que perguntar não pode ser uma forma de tortura?’. Uma resposta óbvia seria: não, não é uma tortura, pois é a única forma de se aprender. Outra resposta possível: não, não pode ser uma tortura, porque perguntas abrem o mundo, enquanto respostas o fecham. O que é uma forma mais branda de dizer: respostas morrem; perguntas, não. E essa foi uma das primeiras lições que aprendi como artista.

Outro caminho para uma possível resposta seria apontar para virtudes tidas como universais: a sede de conhecimento, a insubmissão dos povos, a curiosidade infantil. Cada uma dessas virtudes é motivada por perguntas: é possível curar o câncer? Por que aceitar um governante tirano? O que acontece ao se colocar o dedo na tomada? Virtudes portanto constituídas por perguntas e que pouparam ao longo da história muitas vidas e sofrimento: aprendemos a encontrar comida, a derrubar papas e déspotas, a curar enfermos. Ao mesmo tempo, e daí vêm não só a tortura da pergunta original como a minha hesitação quanto a essa confiança inata no progresso: já sabemos o que ganhamos com as perguntas. Mas e o que perdemos?

A natureza não pergunta. O céu não pergunta. O mar não pergunta. Eles são. Penso se, na tentativa de conquistarmos a tudo através de perguntas, não nos condenamos à separação eterna daquilo que é mais essencial. Cada pergunta que fazemos pode ser um passo a mais rumo a um planeta tórrido, a outro dispositivo inútil, a mais uma dor física ou espiritual inédita, a tudo aquilo que nos torna mais humanos e mesquinhos. A sofrimento que o próprio progresso supostamente tenta evitar.

Na impossibilidade de, enquanto humano e vivo, deixar de fazer perguntas, busco cada vez mais fazer somente as perguntas elementares; isto é, as corretas. Pois há uma diferença entre perguntas corretas e erradas. As primeiras levam ao conhecimento de si. As segundas, a distração e ruído. As perguntas erradas apontam para frente e para trás, ou para os lados. As perguntas certas apontam para cima e para baixo, para o céu e para o inferno. Não os de fora, mitologias inventadas para crianças, mas os de dentro, que fazem adultos gozarem ou chorarem à noite.   

Chegamos enfim à reflexão, de todas a mais óbvia: que esse texto inteiro é uma pergunta. Que espero que tenha sido, em suas imperfeições, a pergunta que devia me fazer hoje. Desejo assim, com falhas e pausas, mas com persistência, de pergunta em pergunta, de passo mais básico em passo mais básico, chegar à questão fundamental. Pergunta esta cuja resposta poderá ser encontrada não mais através de outra pergunta, como em toda a cadeia anterior, mas de silêncio. Silêncio em cuja companhia eu poderei enfim me tornar um só, mudo como os céus, em paz como os mares.

On the news

News can easily become a trap. It’s tempting to keep reading or watching news 24/7 and expecting thus to become someone who’s better informed of what’s going on with the world. The thing is, you’re not getting any deeper information by doing that, no matter how informed are the columns you read, or how clever are the pundits you hear on cable TV, or, for that matter, how long and seething are the Twitter threads you eat with your eyes. By doing all of this, you’re just swimming on the surface of the ocean which is the world. You can swim faster or slower, in serene constancy or in bursts, that’s up to you. The depth of your swimming, however, will not change. To do so, you must first take your time. Raise your head, look around. Let the fresh breeze which blows all over the world-ocean wash you. Notice that essential anxiety which has been bubbling up inside ever since you’ve become old enough to perceive the fuckedupness of life. News won’t cure this anxiety; if anything, they will increase it, since they actually live off each one’s deep-seated angst. It’s not you who’s controlling your fingers when you get the TV remote or when you roll the feed; it’s your anxiety. Now that you’re aware of the issue, take a profound gulp of air and dive. Dive and don’t look up; always go deeper. Read non-fiction books; even better, read fiction, good fiction. Read Joseph Mitchell, who’s as good as good fiction. Go out, get to know some countries, get your soles dirty. Socialist countries, third-world countries, far-reaching countries, fucked-up countries. Study languages, notice how they always sound more interesting and alive than your mother tongue. Talk to people. Actually, don’t talk. Just listen to them. Listen, listen, listen. And do only talk when you’re get tired of listening, so you give them time to drink some water. That’s how you dive. Don’t fall into the trap of slouching on the sofa while you’re force-fed whatever shit is happening between the Dems and the GOP, or whatever parties are taking their turns to fuck over the people of your homeland; remember that each political spectrum will do it, some more relentlessly than others. Turn off your TV. Fuck Twitter. Look outside the window, look at the sun and the moon and the stars. Think. Carry a book around. Think about Joseph Mitchell talking to Joe Gould and becoming so awestruck and depressed he could never write a piece ever again. Get mad at the world, at its all-encompassing, essential unfairness. Dive, until you’ve made to the other side of the world-ocean. Let the air of the other side fill up your lungs with their new scent which is also a familiar scent, for the breeze that crosses the entire globe carries the same old smell — that of sad humanity. Then you’ll understand why news have never made anyone wiser, and why diving can make you mad, but also why any other option means setting up your soul to rot.

Uma Tarde em Terezín

Os dois homens compartilhavam um tabaco enviado pela família de Cvjetko, diretamente de Sarajevo. O chefe dos guardas quis reter o presente. O preso prometeu que na remessa seguinte enviariam uma garrafa de vinho para os soldados.

“Vaso. Percebeu que dia é hoje? Três anos que chegamos.”

“Três anos que não vemos Gavro.”

“Você acha que é verdade? Que ele perdeu o braço?”

“Não sei, dizem que sim. Aquela direita era tão boa. Vai ter que aprender a atirar igual com a outra quando sair.”

Cvjetko sorriu. Esperou Vaso lhe devolver o cigarro. Um dos guardas gritou em alemão, alertando a todos no pátio que tinham cinco minutos.

“Você está otimista. Trifko e Nedelijko já se foram. Se Gavrilo perdeu mesmo o braço, é questão de tempo para ele. E para nós dois.”

“Gavro não é como a gente.”

“Heróis também morrem de tuberculose, Vaso.”

“Gavro não é como a gente. Tomou cianeto quando matou o arquiduque. Não morreu.”

“Tuberculose é pior que cianeto.”

“Você já ouviu ele xingando alguma vez? O pai dele não xingava. Nem bebia.”

“Duvido que ele não tenha xingado nesses três anos. Ninguém deve ter ouvido. Mas ele xingou.”

“Trifko ficava na cela ao lado da dele. Me contou as histórias.”

“Trifko era louco.”

“Louco sim, mas sabia ouvir. Gavro falava de sua cela. Trifko às vezes respondia, mas Gavro não estava falando com ele. Falava sozinho, ou com Deus.”

“E o que ele dizia?”

“Que o mundo vai acabar.”

“Novidade. O mundo está acabando. Tudo virou um campo de guerra. Jesus, temos quase sorte de estar aqui dentro.”

“Tem mais. Trifko ouviu ele dizendo que aviões carregando metralhadoras e bombas irão matar todas as tropas. Que quando não houver mais soldados vivos, a guerra terminará, e todos os reis e presidentes farão um grande desfile em Paris.”

“Trifko era louco. Gavro também ficou.”

“E que de cada lado sairão homens, pequenos e famintos. Disse que cada um dos homens se ajoelhará vomitando, que da barriga de cada um sairá não comida, mas uma pistola. Que os reis olharão paralisados de seus carros. Que se fará finalmente a matemática correta: para cada homem, um rei, para cada rei, uma bala.”

Cvetko terminou o cigarro enquanto brincava com uma lagarta entre os dedos da outra mão.

“A gente não vai sair daqui, Vaso.”

Os dois se levantaram e seguiram em direção às solitárias. Quem desrespeitasse os horários perderia direito ao banho de sol, uma hora por dia. Se Gavrilo em algum momento saía de sua cela, eles nunca souberam.

Gavrilo Princip e seus colegas foram enviados para a prisão de Terezín, atualmente na República Checa, após serem acusados de conspiração e assassinato. Gavrilo matou a tiros o arquiduque Franz Ferndinand, herdeiro do trono austro-húngaro, e sua esposa Sophie, enquanto desfilavam de carro em Sarajevo em 28 de junho de 1914. Este assassinato é considerado o gatilho que transbordou as tensões entre as nações europeias, dando início à Primeira Guerra Mundial.

[Texto com o tema Conto Histórico, 2000 toques, produzido para a oficina literária Nocaute Iceberg, de Joca Terron]

Sépia e Marrom

Por conta das velhas luzes incandescentes, a sala brilhava com um tom sépia. O homem parou em frente ao aparador e olhou cada uma das fotos, segurando-as próximas ao rosto. Cobriu a face com as mãos, mesmo estando sozinho. Após alguns minutos, se dirigiu ao banheiro. Ficou se vendo no espelho: olhos vermelhos, olheiras roxas. Entrou em um dos quartos. O local estava todo arrumado, com exceção dos lençóis. Abriu uma das gavetas da cômoda. Meias e calcinhas. Abriu então outra, e mais outra, até que achou o que buscava. Pôs sobre a cama um conjunto de blusa e pantalona marrons. Deitou-se ao lado e ficou acariciando os tecidos, suavemente, de olhos fechados. Então se levantou e, com cuidado, vestiu o cabideiro, cuja altura chegava ao seu pescoço, com aquelas roupas de mulher. Levou o cabideiro à sala. Sem precisar procurar, colocou um bolero no aparelho de som.

Deu um passo à frente enquanto inclinava o cabideiro para trás. Assim que a música subiu de volume, passou a dar voltas pela sala, segurando o cabideiro enquanto girava com passadas firmes. A cada canção ele dava voltas mais longas e mais rápidas, até que, com seu corpo tremendo e se chocando com os móveis, se descolou do compasso da música. Jogou o cabideiro com força no chão. Se ajoelhou ao lado e rezou o Pai Nosso. Voltou a se deitar ao lado das roupas, olhando para elas enquanto cantarolava baixinho um dos últimos boleros do disco. Saiu do apartamento deixando as luzes acesas.

No aparador, as fotos iam do preto-e-branco ao feio colorido recente. Via-se nas primeiras uma família: pai, mãe e duas crianças, todos com olheiras, inclusive os menores. A mãe sumiu ainda nas fotos em preto-e-branco. O rosto do pai se cobriu de cansaço, até que também desapareceu. O casal de filhos dominava o restante das fotos, da adolescência à vida adulta. Numa das mais recentes, se viam os dois abraçados, com uma montanha nevada ao fundo. Ambos tinham o mesmo nariz e as mesmas olheiras. O homem sorria. A mulher usava roupas marrons.

[Texto com o tema Conto Imagético, 2000 toques, produzido para a oficina literária Nocaute Iceberg, de Joca Terron]

A Espera

Roberto contraiu e alongou o pescoço. Os joelhos doíam após aquelas horas de espera. Levantou-se e dobrou com cuidado cada perna. Aproveitou para ver em que número o letreiro estava. Ainda no 34. Ele, que tinha recebido o 35, não entendia porque tanta demora. Olhou em volta. Ninguém mais saía nem chegava tinha horas. Não havia outros esperando. Observou a porta grande à sua direita. Considerou suas opções, resolveu que faria algo. Mas antes se sentou de novo.
Notou, cansado, o quão forte era a luz naquela sala. Acompanhou uma mosca que veio zumbindo de longe. Pousou primeiro no cabelo armado da recepcionista. Dali voou para a careca suada do segurança. Após alguns minutos, veio aterrissar na sua coxa. Roberto considerou dar-lhe um tapa, porém lembrou-se do nojo que sentia de insetos. Tentou afastá-la abanando com a mão. A mosca nem se mexeu. Ele considerou suas opções. Precisava fazer algo.
Antes que pudesse agir, seu nariz foi nocauteado pelo perfume da mulher que tinha acabado de entrar. Ela cumprimentou o careca com um aceno familiar e se sentou. Sua fragrância continha uma dose violenta de álcool e caramelo. Roberto mal teve tempo de se surpreender com sua chegada. Ele estava muito distante, na sala da coordenadora de sua velha escola. Dona Raquel puxava sua orelha e dizia que se recusava a entender como ele, Betinho, podia ter perdido sua mochila pela quinta vez no ano. Dona Raquel também cheirava a álcool e caramelo. Antes que Roberto chorasse, a mulher do perfume se levantou e entrou pela porta. As mãos de Roberto eram de novo adultas, e a escola tinha sumido. Ele olhou para o letreiro. Permanecia no 34.
Roberto pegou o celular para ver as horas. A tela estava escura. Tentou ligá-lo, não conseguiu. Olhou em volta, tudo estava vazio: a mosca não estava mais lá, o careca e a recepcionista tampouco. Roberto se perguntou se já seria tão tarde. Decidiu que faria algo. Procurou uma janela. A única que havia na sala tinha desaparecido. Ele começou a gritar pedindo ajuda. Ao olhar para trás, notou que o letreiro indicava o número 35.
Roberto se aproximou da porta. Abriu e viu o que havia dentro. Considerou suas opções, então entrou.

[Texto com o tema Sentidos: luz, cheiros, sons, etc, 2000 toques, produzido para a oficina literária Nocaute Iceberg, de Joca Terron]