Cajuína

O sol tinha passado bem pouco do seu apogeu diário quando Juca chegou em casa de novo. A terra brilhava de calor, e o clarão do dia fustigava até quem como ele já tinha o couro cabeludo grosso de tanto levar sol na cuca ainda nova. A garganta seca estava incomodando desde a metade da aula na manhã, a visão das pernas e dos peitos brilhando de suor da Dona Maria o consolo que lhe afastou um pouco o incômodo da cabeça. Bateram onze horas, uma gritaria que só a revoada das graúnas conseguia fazer frente, e todo mundo saiu correndo para o lar ou para a terra, a depender das condições de cada família que por aqueles chãos habitava, fofocava e brigava. Era entressafra na fazenda que Juca trabalhava e essa era a época de os moleques que ali todo dia iam poderem ir para casa mais cedo. Ele caminhava rápido, o pessoal ainda chamou para jogar bola, Não dá, não tô bem, só deixa eu passar em casa que mais tarde venho, É viado mesmo, Vai tomar no cu, se correr atrás da bola agora é capaz de eu capotar no chão e ficar por aqui mesmo.

A casa não era perto, os mosquitos picando todo o corpo deixavam-na mais longe ainda, aquele sol por fim tornava a caminhada infinita. Cada coçada em um canto causava uma vontade ainda maior de coçar em um outro, de forma que o ciclo nunca parava, era um pouco ali na costela, ia para as costas, descia para o pé, o que era ruim porque parar de andar só para coçar não dava, subia para o pescoço, caía para o sovaco, que era logo ali perto, e retornava enfim à costela, só que agora do outro lado. Porra, coceira do cabrunco, como é que os mosquitos aguentam ficar picando aqui a gente o dia inteiro nesse sol, acho que é só porque eles se refrescam com o nosso sangue, não é possível. De cada lado do caminho viu um jegue parado amarrado num tronco, ambos impávidos, Engraçado como eles aguentam mais, devem ser feitos de um material mais fortes que a gente.

Em casa, correu logo para a cozinha, descobriu que a caixa d’água esvaziara nesse meio tempo, Estranho, porque de manhã tinha, será que tá vazando por algum lugar, abre a torneira e nada nada nada só vento. À essa altura a secura na garganta já virara queimação, igual assim só no dia em que o Seu Zé lhe ofereceu a primeira pinga da sua vida e ele descobriu que podia queimar por dentro sem ter febre. Procurou se tinha algum frasco com água largado pela casa, sua mãe vivia deixando um bocado por aí, não acha nenhum, Justamente hoje, meu Deus, nunca senti tanta sede na vida, não sei o que tá acontecendo.

Bateu na porta das três casas vizinhas, o pessoal vivia se ajudando, para poder saber mais do que acontecia nas outras famílias e falar mal depois de se despedir. Duas delas estavam vazias e trancadas, tinha se esquecido de que estava todo mundo fugindo para a cidade, a outra era a casa da velha Lurdes que não iria mais para lugar algum que fosse terreno, e havia de estar no seu lar. Boa tarde, Dona Lurdes, Boa, Dona Lurdes, a senhora teria por favor um copo d’agua para aliviar a minha sede? Eita, menino, nesse dia de hoje não tá fácil não, o sol secou tudo (Vixe!), e do pouco que eu tinha aqui não ficou foi nada (Eita…)…tô aqui é esperando o meu filho passar para ver se traz alguma coisa, mas ele só deve vir de noite, com a minha neta…vamos orar muito, Juquinha, que tamos precisando. Já oro com você, Dona Lurdes, só vou aqui passar no povoado rapidinho porque do jeito que tá não vou aguentar nem chegar até o fim do Pai-Nosso.

Corre, Juca, não é hora de cansar não, o bar do Tonho já deve estar aberto a essa hora, direto eu vejo o povo lá já na hora do almoço tomando aguardente uma dose antes e outra depois da refeição, lá a caixa d’água não deve ter secado, lá nada seca. Se soubesse, já teria ido para lá direto da escola, porque foi que não pensou nisso, acha que vai ter tudo sempre em casa, burro, tenho é que aprender. Se na vinda pareceu que andara quilômetros, na volta agora devia estar caminhando a distância de cidades inteiras, nunca ficou assim antes, o pessoal voltando do jogo passa por ele e ainda querem parar para conversar, Juca, vamo ali na casa do Miguel que ele tem revista de sacanagem, tamos querendo ver desde que ele nos disse na semana passada, Rapaz, não vai dar não, Ué, vamo lá, deixe de frescura, Eu quero ir, só que a casa do Miguel é longe, deixa eu só passar ali no Seu Zé que já venho, Ói, não vamos esperar você não, Tô dizendo, encontro vocês lá, rapidão, e saiu, nem se despediu. A menção às revistas de sacanagem lhe trouxe a Dona Maria de volta para a cabeça, a professora nem era casada, será que daria mole para alguém da idade dele? Claro que não, fudido do jeito que era, ia ter que comer era uma puta barata no povoado quando juntasse dinheiro ou quem sabe se a neta da Dona Lurdes se avoasse para o lado dele…uma morena bonita que ainda por cima era estudada que nem a Dona Maria com certeza estava se guardando para algum filho de prefeito que lhe chamasse para dar uma volta no carro, imagina só ela se abrindo para um rapaz igual a ele como as moças nas revistas de sacanagem fazem, só nos sonhos mesmo.

Estava já a ver vultos em pleno dia, parte pelo sol, parte pela imaginação mesmo, quando o bar do Seu Zé brotou à sua frente, aleluia. Os homens queimados de sol se espremiam na sombra esperando um alívio do calor que ninguém sabia se de fato viria, metade nas mesas junto aos pratos já vazios e os copos de cerveja ainda cheios – sempre cheios -, a outra metade no balcão com as doses da pinga cujo odor penetrava no seu nariz e fazia-lhe recordar da queimação. Seu Zé, boa tarde, pelo amor de deus, teria por favor uma água aí para me servir? Ih, rapaz, água faltou na cidade inteira, viu (Ah…). Nem refrigerante vou ter, que o caminhão não chegou hoje. Juca já pensava que diabos teria que fazer, dividir água com algum jegue se necessário, jurava que até faria isso, quando Seu Zé gritou do fundo, Ah, garoto, tenho uma cajuína aqui que tava guardando para um cliente ontem, ele não apareceu, acho que vou abrir agora mesmo. O líquido dourado preencheu o copo, o alívio para a sede nem ia ser tão grande, era muito doce e logo teria que beber água de verdade, mas a doçura, a doçura, naquele momento se sentia tão aliviado e a garganta tão satisfeita que só podia pensar em como seria gostoso o beijo da Dona Maria.

por Lealdo

Namoros

A primeira namorada o largou dizendo que merecia alguém mais maduro. Depois do primeiro porre de vinho na vida, ele se recuperou, virão outras, muitas outras, é claro.

Com a segunda até que durou, mas veio ao término depois que ela passou a achar que ele não mais a amava. Era verdade.

A terceira, que parecia ser pra valer, disse-lhe que ele estava tomando muito tempo da sua vida. Foi sofrido, e ele prometeu que jamais daria a chance de outra terminar com ele; o fim, se viesse a acontecer, seria pela sua vontade.

Não acabou sendo o caso, e a quarta, depois de meses de lamentações – dele –, bloqueou-o no celular. Apesar de tudo, depois ela veio a sentir saudades das trepadas e da companhia para os filmes, sempre vistos na quarta-feira à noite, quando o ingresso é mais barato.

por Lealdo

Caleidoscópio

Parece que sempre houve na memória de Carlos uma visão marcante de uma barra de saia levantada. A mais recente era a da sua esposa enquanto lavava louças. Não sabia se era por avoação, calor ou mera malandragem de menina, mas a safada tinha deixado metade da barra levantada, ali meio que apoiada, meio que levitando, em cima do quadril, a calcinha branca e uma boa parte da nádega aparecendo. Carlos passou minutos, talvez horas, olhando aquele relevo, sentindo com os olhos a textura do material enquanto fingia que ouvia a conversa, e se lembrava de outras bundas, de tantas outras bundas.

Como a da sua prima, ele com doze, ela nos seus doces vinte e um, um verão de faltar água na bica, a moça provavelmente nem tendo notado a presença do moleque, enquanto ouvia a rádio e lia uma Ti-ti-ti. Estava deitada no sofá, ele passa na sala voltando da piscina do vizinho, até cumprimentou mas ela nem ouviu, estava encantada pela voz do locutor, enquanto Carlinhos se encantava com a barra da saia levantada, primeira visão do tipo que se recorda de ter tido, a calcinha rosa bem à mostra, uns pelinhos que não imaginava que existiriam por ali, saliências e sinuosidades que lhe acompanhariam na imaginação e no tato pelo resto da vida. Antes que a prima percebesse o que mostrava, ele já tinha saído para o banheiro.

Vários verões depois teve a chance de finalmente passar do imaginário ao real, com a vizinha, que tinha o que Carlos teve certeza por muito tempo que seria a melhor bunda da sua vida. Desde a primeira vez em que a viu – a bunda, não necessariamente a vizinha -, no dia em que ele veio à frente da casa pedir um pouco de óleo, e através da grade da frente pôde contemplá-la brincando com a irmã mais nova, despreocupada, sem perceber que a sua saia tinha se levantado, não pôde pensar em outra coisa, a cor vermelha dominou a sua libido por anos. Ela veio, corada, atendê-lo, com uma mão acenando e a outra, como que fingindo que nem ali estava, abaixando a saia para deixar a sua aparência menos indecorosa. Vários pedidos para sair depois, a calcinha vermelha foi abaixada, e não voltou ao seu lugar por o que aos dois pareceram eras.

Muitos anos, inícios, términos, porres, e trepadas depois, tantas bundas e calcinhas tendo-lhe passado pelos olhos, ao se deixar levar pela imaginação, o que faria até a velhice, para Carlos ainda viriam antes de tudo as cores branco, rosa e vermelho, todas se misturando e girando como em um caleidoscópio, rosa, vermelho, branco, vermelho, rosa, branco, rosa.

 

por Lealdo de Góis Andrade

Os Ponteiros

Tic-tac.

Olho para os ponteiros.

Ele não chega? Foda-se, já são duas da manhã, nem deu notícias…vou dormir.

Não, espera, só mais um pouquinho. Ele disse que poderia chegar tarde mesmo essa semana, calhou de ser hoje. Não queria dormir sozinha, paciência.

Tic-tac.

Ligo no celular, talvez?

Não, confio nele. Além do mais, só iria atrapalhar. Desnecessário ele me dizer que já está chegando quando ele já está chegando.

Tic-tac.

Ele não teria porque estar com outra. Não se a gente ainda tem trepado tão bem, nada mudou desde que passamos a morar juntos. Os jeitos e meandros não têm variado muito, admito, mas, como poderia estar ruim? Se a minha dormência nos pés ao fim ainda é a mesma do começo do namoro.

Tic-tac.

Lembro do embrulho que ele chegou trazendo outro dia, com aquela cara de dissimulado que bem conheço. Foi a mesma que fez há uns meses quando perguntei quem era a mulher passante para quem ele abriu um breve sorriso, Quem é essa? Quem? Essa para quem você acabou de sorrir. Sorrir? Você está vendo coisas, não conheço ninguém aqui.

No dia do embrulho nem fiz questão de perguntar direito, estava preocupada com outra coisa e, indagado, ele jogou no ar que É só uma coisinha, amor.

Tic-tac. Passam das três. Um acidente, é claro. Eu teria sido avisada, mas vai que…o celular. Nada. Caixa postal. Devo me preocupar?

Tic-tac. A coisinha do outro dia, qual era a sacola? Homem nunca se lembra de usar uma sacola diferente da original. Espremendo a memória…tinha a logomarca do shopping, certeza. Mas daqui a uma semana é aniversário do pai, tic-tac, deve ser algo para o velho.

Não vou ficar pensando nisso.

Tic-tac.

A qualquer hora ele chega, nem estou mais com raiva, querido, é preocupação mesmo, chega logo, caralho.

Tic-tac.

Mas e se fosse um presente para o pai, ele não teria dito?

Tic-tac.

Olho para os ponteiros.

Tic-tac.

 

por Lealdo de Góis Andrade