O Jogo

Meu pai nunca gostou da ideia de ter uma arma em casa. O pai de Beto, meu amigo, não pensava assim, no entanto. E Beto sabia. O pai não a mostrava para ele, mas Beto entrevia, pela fresta da porta, ele polindo a arma, em algumas noites de sábado.

Tínhamos quinze anos, com diferença de poucos meses. Em casa, moravam só Beto e o pai. Era filho único, e a mãe falecera doze anos antes. Fora baleada por assaltantes que invadiram a casa deles.

Era uma noite de sábado. Estávamos na casa dele, o seu pai tinha saído. Jogávamos videogame. Chovia, e eis que a energia caiu. Beto procurou velas na cozinha, não achou. Comentou então sobre achar que o pai, por alguma razão idiota, podia ter algumas no quarto, junto a uma bíblia. Segui-o, cada um com celulares à postos. Claro que eles nos ajudavam bastante, eram inclusive melhores que vela para iluminar, mas não durariam a noite toda, em especial se não sabíamos quando a energia voltaria para carregá-los.

No quarto, ele mexia num criado-mudo enquanto eu fuçava o outro. Ao mesmo tempo em que eu gritei “Achei!” com as velas em mão, sorrindo para ele, ele me olhava sério. Tinha a .38 do pai em mãos.

Pedi para ele guardar a arma. Tinha aprendido com o meu pai a não brincar com isso. Ele falou “É, sei, é perigoso, mas só estou olhando. Nem deve estar armada. Gosto de como ela brilha com a luz do celular”. Ele estava fingindo que a apontava para o espelho, imitando uma cena de filme, quando o pai dele apareceu à porta. “Então vocês gostam de brincar de arma?”, ele nos perguntou. De terno, como ele estava, em frente à janela pela qual se via a chuva na cidade, e mais nada, ele parecia um senhor feudal, dono de suas terras e seus vassalos.

Paralisados, eu apenas segurava a vela recém-acesa na mão – tinha levado já os fósforos para o quarto – enquanto ele continuava apontado para o espelho, com os olhos fixados nos do pai, que eram gélidos. O pai se dirigiu lentamente até Beto e em um movimento firme tomou a arma de suas mãos. “Vamos brincar, já que vocês gostam disso”.

Meu desejo era de fugir, até talvez o fizesse se Beto também saísse correndo, mas ele apenas conseguiu descer as escadas, acuado. Segui-o, com o pai dele atrás de nós dois, arma em punho. Cada passo na escada de madeira ressoava por toda a casa. Na sala, ele nos mandou desligar os celulares, e disse para eu pôr a vela no centro da mesa redonda de vidro. Era a única fonte de luz. Ordenou também que nós dois nos sentássemos, depois de fecharmos cada uma das cortinas. Obedecemos, congelados.

Sem pressa, como em todos os movimentos dele, ele por fim sentou-se também, defronte dos dois. Deixou o revólver na mesa, próximo a ele. Com a mão direita revirou o bolso enquanto com a esquerda coçava o cavanhaque. Colocou duas balas na mesa, o vidro estalando com o choque de cada uma, que pareciam pesar quilos naquela noite. Uma bala aparentemente nova, a outra usada. Ele pôs a nova na arma, tomando para si cada segundo como senhor do tempo que era, sem urgência. Girou o tambor, olhando alternadamente para os olhos de cada um. “Já que gostam de brincar, que tal um joguinho de roleta russa?”.

Queria me levantar, dar um soco nele, imobilizá-lo. Ele era maior que cada um de nós, mas não maior que os dois juntos. Beto, no entanto, nada fazia nem parecia que iria fazer. Apenas olhava para baixo, começando a lacrimejar. A voz do pai dele nos dominava: “Sendo o mais velho, acho justo ser o primeiro. Não acham?”. Apontou a arma para a própria têmpora. Desejei primeiro que o disparar do gatilho fosse em vão, que houvesse apenas o barulho do martelo da arma sendo estalado. Logo em seguida, desejei que a bala saísse, sim. Odeio a mim mesmo e me castigo e penso nisso todo dia antes de dormir. Mas foi a verdade.

Só ouvimos o clique, nada mais. Quase deu para ouvir Beto suspirar, mas não tenha certeza se ele suspirou mesmo. Talvez soluçasse. As suas lágrimas desciam sem barulho.

O silêncio da sala, acompanhado pela fonte ancestral de luz que estava no centro geométrico do triângulo formado por nós três, nos fazia sentir num espaço eterno, onde mortes eram decididas assim, ao acaso, ao sabor do vento. O pai de Beto, em seguida, olhou para cada um. “Bom, agora é a vez de algum de vocês. Qual é o mais velho, para manter a regra?”. Nos entreolhamos. Eu sabia ser o mais velho. No entanto, nada disse. Beto também estava mudo, sabendo da verdade e sabendo que eu sabia da verdade. Nos olhamos, eu e ele, durante vários segundos, questionando-nos silenciosamente qual de nós seria o primeiro a abrir a boca. Estava prestes a admitir que era o próximo quando o pai de Beto bateu a mão na mesa, impaciente. “Caralho, se nenhum sabe, portanto que seja meu filho. Vamos passar de pai para filho essa brincadeira. Seguir o caminho do sangue. Justo, não acham? Filho cujo sangue é o meu. Não?” Aquele foi o único momento da noite em que houve algo no olhar opaco de Beto. Houve ódio, direcionado a mim e ao pai. Ele sabia que eu tinha permanecido calado, que deveria ser eu, mas eu fugi, fui fraco. O pai dele segurou a arma com o cano, gesticulando para Beto que segurasse a arma. Ele não levantava o braço, entretanto. O pai deu-lhe um tapa no rosto. “O quê? Não vai brincar? Está com medo?…bom. É a sua vez, pelo nosso acordo. No entanto, permanece assim. Imóvel. Patético. De você não esperava diferente. Sabe por quê?”. Beto olhou para ele como um animal olha para o leão prestes a devorar as jugulares de sua família: odioso em seu pavor, pavoroso em seu ódio. “Se você não tem coragem de puxar o gatilho, eu o faço por você.” Em um movimento de mão, o pai de Beto girou a arma. No segundo seguinte ele já a segurava corretamente, cano apontado primeiro para a têmpora e então frontalmente para a testa do filho. “De um filho que não é meu, nunca esperei atitude ou coragem. Não veio antes e não virá agora.” Ele puxou o gatilho.

Dei um salto com o estrondo e o clarão. Abaixei o rosto com os olhos fechados e estremeci quando a cabeça ensanguentada de Beto se chocou secamente com a mesa.

Despenquei no chão, rastejando debilmente para baixo da mesa. Fui capaz apenas de ouvir o som da arma sendo largada na mesa e dois braços fortes me carregando para fora, pelas pernas. Sua voz soava grave e profética. “Sabe qual era aquela outra bala? A usada? Você sabe, não, jovem? Foi a bala que matou a cadela da mãe dele, doze anos atrás, no mesmo jogo. Da mesma maneira. Estava escrito, jovem. Pus a arma na minha cabeça antes dela. Não veio a bala. Isso é predestinado, não sabe? Aquela bala tinha sido feita só para matá-la, aquela vadia. E agora, finalmente, doze anos depois de ouvir a verdade dos seus lábios, doze anos olhando para o filho ilegítimo toda noite e em cada uma delas querendo matá-lo. Outra bala igualmente divina realizou o seu propósito. Não é azar dos que se foram, meu jovem. É a mão de Deus guiando as nossas.”

Me jogou na calçada encharcada. Eu chorava, sentindo o sangue de Beto espirrado em mim, minha roupa manchada ainda pela chuva que tudo lavava. Minha última visão daquela casa foi o pai de Beto fazendo o Pai-Nosso enquanto fechava a porta, olhando para os céus e sorrindo.

conto originalmente publicado na página Arquivos de Erebus: https://www.facebook.com/arquivosdeerebus/posts/301597296954286

O Fã

Já sonhou em se encontrar com o seu escritor favorito? Eu já. Era o escritor de suspense que mais amava, o responsável por minhas noites mal dormidas, consumido por suas histórias. Havia devorado todos seus romances e contos. Cada inovação sua era seguida de mil plágios de autores menores. Cada enredo original era prontamente copiado em mil rascunhos mal feitos – e ainda assim, publicados! – onde suas cenas e soluções tão elegantes e macabras eram distorcidas em clichês, deus, quantos clichês. Há décadas que era o nosso rei, e apesar disso, ou, quem sabe, justamente por isso, era recluso como um leproso medieval. Nunca respondia emails de fãs. Nunca aparecia para autógrafos e feiras, mesmo as várias feitas em sua homenagem. Tudo que tínhamos era a mísera foto em seu livro; era o que nos permitia ao menos conhecer seu rosto – um rosto tão banal e ainda assim único para nós, seus devotos – e saber como ao longo das obras – um best-seller atrás do outro – seu cabelo rareava e seus olhos se demonstravam mais e mais opacos.

Qual não foi a nossa surpresa quando os cem membros mais antigos do fã-clube oficial, e apenas eles, receberam em seus emails um convite para o lançamento de sua mais inédita obra, com a presença de ninguém menos que, sim, o autor, em carne, osso e imaginação doente. Foi o suficiente para, nas três semanas que separaram o recebimento do convite e o evento em si, meu coração bater febril em cada noite, justamente quando mais queria apenas dormir para que o tempo logo passasse.

Na noite do lançamento, nos reunimos num teatro. Ninguém havia na recepção; apenas havíamos entrado e preenchido os lugares. O palco, além da cortina vermelha fechada, continha somente um par de velas. O convite anunciava o evento para as vinte e três horas; qualquer outra informação nos permanecia oculta. Não sabíamos o nome do livro, e se teríamos que pagar por ele ou pelo evento. Nos fora exigida somente a presença.

Às vinte e três em ponto, as luzes artificiais se apagaram. Naquele momento, a débil iluminação das velas mal era suficiente para enxergar a cor da cortina. Nossos corações coletivamente batiam numa sinfonia desordenada. Sem aviso ou preparação, uma voz começa a nos falar do sistema de som:

“Bem-vindos, meus queridos leitores. Meus amigos, meus irmãos. Boa noite.”

Todos se entreolhavam, buscando ser gentis, inclusive respondendo o boa noite, até mesmo tentando descobrir se o autor – conhecíamos seu rosto, afinal – não já se escondia no meio de nós. Seria um truque perfeitamente razoável. Não parecia, no entanto, ser o caso.

“Imagino que estejam ansiosos para o lançamento que lhes aguarda hoje. Bom, antes de tudo, agradeço pelas décadas de leituras fiéis. A vocês tudo devo. Acreditem em mim. Tudo.

“Talvez os mais atenciosos tenham percebido, todavia, como minha saúde se deteriorou ao longo dos anos. Esse fato não pôde escapar às imagens, devem saber. Jamais quis retocar minhas fotografias…assim, não seria difícil perceber como me tornei mais e mais emaciado. Cadavérico, até, diria. Bom. Apropriado para um autor do meu gênero, não?

“A verdade é que o processo de criar tantas histórias me consumiu. Alimentar vocês, meus donos. SIM, vocês são meus donos, acreditem, não passo de um escravo cuja obrigação moral é parir, PARIR, enredo atrás de enredo para vos satisfazer. É tudo que esperam de mim. Como tive que aguentar ligações e mensagens e cartas pedindo mais histórias, solicitando continuações, exigindo finais! Tanta expectativa, justamente de quem apenas deveria me deixar em paz, agradecer e seguir a vida, somente isso. Tudo que esperei de vocês foi respeito e silêncio. Nunca houve, é claro. Antes que duvidem…li cada pedido que foi me enviado, seja por qual meio tenha sido. Não queria, nem mesmo devia, mas não resisti…”

À essa altura, algumas reclamações em voz alta já partiam da plateia; alguns se levantavam, enquanto outros, elevando a voz, denunciavam ser tudo uma farsa. Os mais frágeis choravam, tristes de terem ofendido seu ídolo.

“Bom, depois de hoje não haverá mais cobrança. Presentar-lhes-ei com a minha obra-prima. E assim, finalmente, terei paz. Esse presente é a única forma como posso lhes agradecer, depois de tantos anos de relação íntima.

“Ah, sim. Um último adendo necessário. Estou gravando essa mensagem às oito da noite. Quando ela terminar de ser tocada nos alto-falantes, será pouco mais de onze, creio…espero que gostem da obra que agora, sem mais espera, lhes dou.”

As cortinas se abriram. Nada vimos, no breu. Podem então ter se passado trinta ou trezentos segundos de escuridão. Minha ansiedade estava a tal ponto que eu não media mais a passagem do tempo. Subitamente, todos os refletores iluminaram o mesmo ponto no palco. De início nada consegui enxergar, ofuscado.

Aos poucos, minha visão se acostumou.

Numa poltrona preta, isolada, estava sentado o nosso escritor. Inconfundível. Sua boca estava aberta. Quando finalmente consegui abrir os olhos por completo, entendi o que nos aguardava. No corpo do autor, em toda a sua glória solitária no palco, estavam lápis enfiados em cada um de seus olhos e uma caneta tinteiro atravessava de lado a lado a garganta. A tinta se misturava ao seu sangue coagulado no peito. Todos os seus dentes haviam sido removidos.

Abafada por gritos e surtos da plateia, emanava dos altos falantes uma gargalhada.

conto originalmente publicado na página Arquivos de Erebus: https://www.facebook.com/arquivosdeerebus/posts/309109252869757

Confissões

O boxeador está sentado, olhando para as suas mãos enluvadas. Sua frio.

– Será essa a última? Ou, mesmo sendo só uma, as últimas? Possivelmente a dele, provavelmente a minha. Não importa, a essa altura estou cansado demais para saber. Que a lona não tarde.

O médico, contemplando a janela do escritório e além, acende o primeiro cigarro desde a formatura.

– O meu lado humanista sabe que já morro aos poucos respirando e que esse cilindro só acelera o processo. O meu lado humano sabe apenas que tem pressa.

O homem foi preso enquanto o sangue da prostituta ainda estava quente e espalhado pelo quarto. Falou calmamente enquanto era algemado, em meio a gritos:

– Ela que pediu. Todas querem, com seus sorrisos, mas essa foi a única que pediu…ouvi a sua voz no meu ouvido implorando, e não fiz nada além de lhe dar a felicidade que buscava.

A senhora passou quarenta anos com o marido. Se separaram. Ficou mal, depois finalmente descobriu que gostava de sexo. Conheceu alguém vinte anos mais jovem que ela, trinta e cinco que o ex. Uma noite, ele dormia após ter fumado. Ela acendia as bitucas e só as bitucas, sem nunca ter fumado em sua frente.

– Durante todo o casamento, amei meu marido. Ele não me amou. Você, no entanto, me ama, enquanto eu não te amo. Roubo seu cigarro fumado e uso seu corpo. A sua tara pela minha carne mole ainda vai me matar.

A mãe, após ter deixado as crianças na escola, abriu o frasco de comprimidos. O marido tinha viajado a trabalho, como sempre viajava, como sempre viajava.

– Já tomei remédios que me fizeram bem. Outros me fizeram mal. Apenas peço que esse cure a doença da qual, sem ter adoecido, nunca sarei.

Valsa Sem Fim

Quando pensava que

Tu te calavas, que

Não perguntava o

Porquê,

 

Eu me dizia que

Sim, já sabia,

Posso mandar em

Você.

 

Olha pra mim,

Não me quer mais aqui?

Agora é tarde

Demais.

 

Saiba de algo,

Não fique enganado,

De mim terás que

Ouvir.

 

A diferença

É tão pequena,

Penso que quase

Não há.

 

Somos o mesmo,

Não é pra ter medo,

Juntos, os dois, com

Seu sim.

 

Sim, é verdade,

Obedeces, faz parte,

Mas alguém tem que

Mandar.

 

E se não queres

Fazer o que deves,

Deixa tua raiva

No ar.

 

Pois que serás

O meu grande amigo,

Este que aqui

Me pôs.

 

Pro meu presente,

Apenas consente,

Cala-te e come o

Arroz.

 

Seguimos os dois

Nessa valsa sem fim,

Te quero, perto

Assim.

 

Te beijo, te abraço,

Não perde o compasso,

Canta agora

Por mim.

 

Quando pensava…

por Lealdo Andrade

Saulo Acorda

Sem saber que acordava, Saulo encarou o teto, tremulante como as ondas cerebrais repletas de imagem que ainda ecoavam. Ao lado do despertador chinês estava o seu Homer Simpson, com testa franzida e gotas da excessiva cobertura da rosquinha a melar a superfície da mesa de plástico que fazia as vezes de criado mudo. Homer lhe observava com absoluta seriedade, perguntando porque diabos ele já saía da cama se o relógio nem sequer tinha disparado ainda. Não sou eu que tô me levantando, responde Saulo, deve ser outra pessoa, porque jamais sairia por pura vontade de onde estava até agora. O número que Jandira recitara no seu ouvido e que Saulo tivera o bom senso de registrar no celular era factual ou um produto da sua imaginação, não mais palpável que o denim da jaqueta que ela usava e estava prestes a remover no fim repentino do sonho? Anotou-o de novo, agora no que poderia talvez tomar como vida real, se é que se lembrava corretamente dos dígitos, para tentar conferir durante um momento no trabalho.

Aglutinado contra paredes humanas cuja formação, por maior que fosse o número de possibilidades que pudesse apresentar num dado momento, aparentava nunca se alterar de um dia para o outro, Saulo percorre fisicamente uma Metrópole passável como não-violenta no início do século XXI. Todavia, o que ele vê são múltiplos pequenos focos de ação cujos participantes são personagens de um filme de guerra etéreo, não inteiramente desprovido de alívios cômicos. Morteiros que disparam à abertura de semáforos, pelotões que perdem a formação no súbito aparecimento de emboscadas formadas por mendicantes ou maltrapilhos, helicópteros audíveis acima de toda a cacofonia que podem perfeitamente portar napalm ou executivos do ramo da Construção Pesada, ambos desenvolvidos sob rigoroso escrutínio para combater aquele que é o terror último de todos os envolvidos, o habitat natural.

O portal da Corporação, de vidro temperado semifosco com o logotipo de L invertido gravado a laser, fecha-se num pf surdo que o isola da civilização. O microcosmo o recebia com um largo sorriso asséptico, para gentilmente guiá-lo por algumas centenas de metros de corredores repletos de funcionários ensimesmados, revestidos com um piso aparentemente criado apenas para que o sapatear de quem ali passava se prolongasse até o infinito, uma câmara anecoica reversa.

Carlos, seu vizinho de expediente, concentrado no que devia ser uma planilha eletrônica intrincada demais para essa hora do dia, recebe Saulo com um bom dia inesperadamente vívido.

“Por que essa disposição toda? Festa privê com a namorada ontem? Ou talvez não tão privê assim?”

“Muito melhor, meu querido Sal. Olha isso aqui.”

“Ótimo, parece um puta sapato horrendo. Achou na rua?”

“Não, porque o primeiro sem-teto que experimentasse essa maravilha aqui teria ficado tão feliz que iria abraçar o seu cachorro na hora e chorar agradecido pela primeira coisa boa que a cachaça lhe trouxe. Além do cachorro, claro. Estou falando sério.”

“Inacreditável. Vou pôr meus fones de ouvido antes que também queira abraçar o sem-teto só para poder parar de ouvir o que você diz”.

“Escuta. Esse par de sapatos estava na minha casa. Usei durante as entrevistas de estágio da faculdade, e achei que tivesse perdido para sempre numa festa que dei. Acontece que eles só estiveram, durante cinco anos, pendurados atrás da geladeira. Não tenho ideia de como pararam ali. Ou de como nunca senti o cheiro deles. Acho. Aliás, isso explica muito. Mas esses anos, amigo, posso garantir, recebendo esse calorzinho ali o dia inteiro, deixaram esse couro tão macio que até acho que vou patentear a ideia.”

“Mas quem você acha que…”

Num átimo, Saulo vê um ponto brilhante através da janela de Carlos movendo-se rapidamente do além em direção à entrada do prédio lá embaixo, poderia ser um aeroplano voando perigosamente baixo, mas aqui tem tantos edifícios, não seria possível, será que se trataria de um…

O foguete explode ao que não devia passar de dois metros do chão e do portal. Saulo assistiu à toda a trajetória mesmerizado como um inseto incapaz de fugir ao seu destino diante da lâmpada, procurando idiotamente refugiar-se debaixo da mesa apenas no último segundo. Cautela inútil, visto que os reforçados vidros contêm quase todo a parcela do impacto que chega à sua sala. Os embasbacados funcionários da Corporação naquela manhã sofrem apenas o choque de achar que hoje tudo poderá finalmente ser diferente, e antes que consigam imaginar se isso será bom ou ruim, invasores começam a adentrar o prédio armados de fuzis, facas e balaclavas.

Com gritos masculinos e femininos em alturas variadas, o som do alarme e o guinchar distante dos sprinklers num intervalo dissonante e a percussão agitada que o exército invasor providenciava, todo o espaço corporativo foi dominado por uma sinfônica ruidosa cujo maestro decidira não ensaiar previamente. Todos começam a correr em direções únicas, chocando-se, xingando-se e por fim dividindo-se em três grupos, um que tenta entrar todo de vez na saída de emergência, outro, bem menor, que segue em direção à entrada com a esperança de não serem mortos pelos invasores, sejam eles quem forem, e, por fim, um formado pelos que secretamente acalentavam desejos bélicos dia e noite, que em menos de um minuto removem todos os periféricos eletrônicos de cima das mesas, virando-as para formar uma rústica barricada. Saulo olha para todos os lados, tem apenas um relance dos calçados novos-velhos de Carlos por entre o grupo que se aperta na saída, e resolve, solitário, engatinhar para um corredor que a essa altura continha apenas sapatos de salto de alto abandonados.

Tiros eram ouvidos, sem que se conseguisse facilmente associar quais gritos correspondiam a quais disparos. Saulo, escondido ao lado da máquina de xerox num canto do almoxarifado cuja localização sempre difícil agora evidenciava ser tremendamente vantajosa, passava suando pelos contatos da agenda do celular perguntando-se para qual valeria a pena ligar naquele momento. Bombeiros, não. Polícia, não a tempo de eu não morrer. O possível número de Jandira…quem sabe dar um oi antes do fim. Se for o número dela. Se ela ainda estiver viva. A essa altura, os ses não têm muito mais peso. Manda uma mensagem, aki eh saulo, tah viva? O barulho proveniente do escritório diminuía pouco a pouco, com ecos de passos indo e vindo sendo a única confirmação de atividade humana. Os invasores não devem ter chegado à barricada ainda. Saulo se indagava quanto a como os seus colegas poderiam se defender quando uma mensagem chega. Jandira, escondida lado vaso, cheiro ruim, hall, 5 banheiro fem, ultimo box, ainda viva, que porra tah acontecendo? Uma pequena explosão eclode no escritório. Não há como chegar ao Hall dos Banheiros no 1º andar sem passar pela sala onde agora ao menos um dos lados deve estar disparando muitas balas.

Saulo se esgueira colado ao drywall, com o celular em mãos, e põe metade da cabeça para fora. Nas mãos dos seus colegas entrincheirados, alguns dos quais já caídos, surgiram metralhadoras, com as quais conseguem manter os invasores cautelosos atrás de pilares e esquinas. De ambos os lados vêm tiros, não parecendo necessariamente errar seus alvos, no entanto ninguém demonstra estar de fato com medo ser alvejado. São dois lados de uma gincana onde as bolas da infância foram substituídas por cartuchos. Invasores e combatentes estão em igual número, com novos recrutas aparecendo de cada lado na eventualidade de alguém ser realmente atingido, tudo de forma a manter-se um equilíbrio primordial. Saulo responde a Jandira com uma mão só, a kminho, se protege. Tão afetuosamente apegado à parede quanto possível, vai lentamente em direção à saída, torcendo para que a sua invisibilidade social se mantenha mesmo numa situação tão heterodoxa. No percurso, atravessa o corpo de um dos invasores, morto mas com menos sangue à sua volta do que se poderia supor, e toma a sua arma para si.

Os corredores, sem entidades físicas visíveis, sejam elas vivas ou mortas, entretanto permeado por sons provenientes de embates seculares que poderiam estar acontecendo ali ao lado ou não, levam Saulo ao Hall dos Banheiros, uma solução orgânica da Corporação para lidar com o problema eterno da falta de toaletes disponíveis, uma das suas razões sendo a privacidade primeva que só um banheiro fornece para atos como dormir, chorar, usar a internet e até mesmo algumas funções fisiológicas.

Saulo arromba a porta do 5º banheiro feminino do Hall com um chute à moda americana, apontando logo em seguida a arma, que nunca antes usara, para dentro. Nenhuma alma. Procede até o último box, porta fechada. Alguém aí? Sem resposta. Jandira? Jandira? Vim para lhe salvar, meu bem! Bate na porta até concluir que ela provavelmente não está acordada e, sob o risco de machucá-la entrando de maneira forçada, atira na fechadura do box ao lado, entra e sobe no vaso para ver por cima.

Vazio. Só um celular boiando na água. Antes que perceba, uma multidão invade o local, colegas de trabalho, soldados, fotógrafos, repórteres, curiosos, Carlos, até Jandira!, para lhe conter, tomam sua arma, algemam-no, registram sua cara de imbecil, colocam um saco plástico preto na sua cabeça e o levam embora para sempre.

Na manhã seguinte, a Metrópole e a Corporação não tinham outro assunto no café.

(Conto que escrevi perto de 1 ano atrás; finalmente pondo no blog)

Sobre sua ex-banda favorita

Conhece? Você já deve ter conhecido. Não é possível que não o tenha.

Aquela sensação de ter uma banda favorita, onde as participações de cada instrumento (que você, no sua pretensão tão jovial, acredita conhecer de cor) conseguem o feito de, ao menos uma vez na história do rock, harmonizarem-se de forma perfeita. Você tem certeza de que jamais se tocou daquela maneira, e de que nunca outrora houve uma conjunção tão perfeita do Espaço, uma que tenha permitido 3 ou 4 ou quem sabe 5 músicos, que nasceram para tocar juntos e apenas para tocarem juntos, compartilharem o mesmo palco ou estúdio. Você, no quarto, na rua e na escola, ouve repetidamente, compulsivamente, as mesmas músicas, sorvendo cada segundo daquelas canções e instrumentais tão perfeitamente executados, tão perfeitos que a verdade é que só podem ter sido feitos pensando em você, você, você, mais ninguém, apenas você. Eles são os seus melhores amigos e instrutores. Ignore as críticas e as piadas dos amigos que passam a perceber o seu vício naquele som em particular, uma obsessão que não é compartilhada ou sequer compreendida por mais ninguém. Tudo que importa é aquela banda, naquele momento, e, se você for o sábio o suficiente, o que você provavelmente não será, saberá aproveitar cada segundo, cada segundo em que você tem o prazer de se deleitar com o prévio conhecimento de cada riff perfeito, e esse prazer deverá ser sorvido assim, a quente ou a frio.

Após isso, você crescerá e perceberá que eles, os seus ex-ídolos, não passam duma banda medíocre.

Inegociabilidade

O que poderia uma eterna simetria
Frente ao fragmentado universo
Espelhado nos rachados azulejos
Com que se veste a alma?

Eternamente inconciliável
É o derramar da areia
Com a sublime visão do castelo
Que então à minha visão se erige.

Falo todas as línguas do homem,
E sei que das palavras ecoadas
De uma distante fonte
No meu ouvido,
Todas fazem sentido,
E são belas.

Aceita o meu abraço,
E não me larga após
O mais efêmero mostrar
Apresentar a perene realidade
Que jamais se escondeu
Por detrás de cada grão de areia.

Sonho com mil mundos
Onde cada habitante
Sonha os seus mil mundos
E todos dormem felizes
Por não estarem em seus respectivos mundos.

Para quê aviões?
O homem jamais teria necessidade
De se levantar do chão,
Pois já teria em si
Toda a altura de que necessita.

Jesus não gritou por seu pai,
Jamais.
Gritou como um preso gritaria
Ao perceber a condenação
A que estava destinado:
Não subir aos céus.

Das manhãs selvagens

Das manhãs selvagens

Absorvo a tranquila angústia

De quem sabe que a noite

Nos sussurrará uma canção de ninar

Para despertar os mortos.

 

Deixo florescê-los todos.

Sucumbir-me a mim,

Aceitar a existência tão vaga

Quanto a diferença

Entre tudo que passa.

 

Olho para o céu, e vejo o infinito.

Tornar-me-ia um com o universo

Fosse possível.

 

Como dizer o que não entendo se descreio no que não conheço?

Vinde a mim as criancinhas,

Não ouso desejar tudo,

Apenas aquilo que me pertence.

 

Poetas antes de mim quiseram capturar o que não sabiam.

Pôr ossos em recatados sóis,

Incapazes pincéis em pálidas portas.

 

Se anseio pelo que de mim está além,

Que parte de mim terei que deixar

Para alcançar o que de mim está no além?

 

Olho para o céu, e sei que o infinito

Não passa daquilo que não somos.

Não sendo, não nos tornaremos

O nada que para sempre seremos.

 

Que tudo flua à minha volta

Enquanto tudo o que eu não sou

Pega a minha mão,

E eu pego a sua mão,

Levando-me para o poente.

 

Deixo-me, fremente, ser levado,

E descanso,

Carregado por uma última visão,

Ardente.

por Lealdo Andrade

Consciente, inconsciente e pateticamente inspirado pelo maior do maior, Tabacaria.

Os Bufões voltam à ativa, após mais de 1 ano de alguma escrita ainda não aqui publicada e muita leitura – tenho descoberto novas formas, possibilidades e, invariavelmente, ídolos. A ambição segue; o presente, quem sabe, alcançará o futuro ainda só existente na minha cabeça.

Sons

Tê. Dê. Pê. Á.

Comecei, não faz tempo, a notar os fonemas. É tão fácil se deixar levar por formações tão abstratas – a trama, os personagens, o desenvolvimento psicológico, a interferência do narrador na escrita, se há reverberações românticas, o uso do fluxo de consciência, a política, o social, o dinheiro, o marxismo, o comunismo, Trótski, Tró, tíski, tró, tró – que costumo (costumamos?) deixar de lado as pequenas partes que formam isso tudo.

Foi em um momento pequeno em um dia igualmente pequeno que, escrevendo a frase “E foi lá pelo lago que ali fica”, todos os l’s (ou deveria escrever éles?) ficaram reverberando. Ah, foi por isso que a Professora Joana há anos insistiu em mencionar a palavra aliteração. Porque não lhe dei a importância devida na época? Talvez porque o nome não ajude? Se fosse atiteração, ou aliletação, teria sido mais clara a necessidade?