Dois regurgitos

Pan-América:

E se todos entrássemos ao mesmo tempo nos Estados Unidos, como eles nos receberiam? Como lidariam com todos os aviões e barcos, trens e jegues, carros e caminhões repletos de imigrantes que chegam e não param de chegar, todos enfileirados ansiosos para saber se o céu do país é como nos filmes, se lá finalmente teremos tudo que tanto desejamos desde que vimos refletidos em tela em filmes de Hollywood, propagandas, seriados, desenhos animados, videogames, até mesmo livros, sim, até os livros nos foram roubados, apenas precisaríamos então respirar o ar do país, sentir a nova umidade, ver os corpos gordos, feios e suados, mas também os corpos lindos e fortes dos gostosos e das gostosas que nos são vendidos em todos os segundos de luz refletida que nos forçam goela dentro, que nos forçam, nos forçam, e consumimos, felizes, desejosos daquilo que nos é introjetado via sangue, esôfago, traqueia e olhos, acima de tudo nos olhos, que até mesmo esquecemos de todas as belezas que podemos consumir daqui mesmo, todas as visões radiantes que poderíamos usufruir não lhe tivesse sido colocada a lamentável tarja de exóticas, todas as nossas belezas são exóticas, não passamos de gente exótica em lugares exóticos com peles exóticas fazendo coisas exóticas, tudo como num quadro para crianças que nunca sequer se dignaram a sair de mais de algumas milhas do seu subúrbio repleto de casinhas brancas onde cresceram, subúrbios medíocres onde ainda hoje se vê Spielberg e se pensa que aquilo é bom, onde crianças ouvem rap escondido ainda achando que é uma música perigosa, mais perigosa ao menos que o rock que os seus pais ainda ouvem ao menos é, isso posso assegurar, não deixando tudo no entanto de ser uma grande idiotice, uma pasmaceira desmedida, e ainda assim, apesar de tudo, tudo, tudo, com todas essas luzes refletidas durante horas e horas e dias e horas nas nossas mentes, mentes e olhos, mentes e olhos, nada temos que não seja desejar ter nascido em outro lugar, desejar não sermos nós mesmos, desejar o fim, o vazio, a morte, tudo aquilo que nos consumiria e que enfim nos daria um sentido porque do jeito que as coisas seguem não passamos disso, terceiro-mundistas ridículos que nunca terão nascido em Pittsburgh ou poderão dirigir um Gran Torino velho obtido com moedas do próprio suor, para sempre seremos essas crianças destituídas de sonhos próprios, apenas os sonhos que aprendemos a sonhar via filmes e videogames e tudo, tudo, tudo aquilo que não é nosso, que nunca foi e que nunca será.

Rosa e laranja:

Há alguns dias, estava saindo do meu trabalho patético, material para toda uma nova carga de devaneios, abstrações, citações e expurgos, quando vi um céu rosa e laranja. Nunca tinha visto um céu dessa cor. Recordo-me de, há anos, talvez quando minhas amigas estavam me visitando em 2009, ou talvez num dia em que estava no celular com a minha ex-namorada, um céu verde, lindo, verde de uma forma que tudo recobria de verde, verde nas roupas, nos cabelos, na sarjeta, nos vértices do prédio, cinco minutos de um verde que tornou a minha memória verde até onde não era. Desse eu me lembro. Mas de um rosa e laranja, não. Parando, observando o céu, pensei se eu me lembraria da beleza dele, se eu conseguiria usar aquilo para criar algo, ou ao menos para tentar pateticamente reproduzir a beleza daquele rosa e laranja, rosa e laranja por sobre um canal fétido, uma cidade fétida, onde a alma e a mente são mortas, mas onde o rosa e o laranja por um momento a tudo me iluminaram e me permitiram sorrir e descansar o frenesi.

[versão finalmente revisada da verborreia original publicada em https://bufoes.wordpress.com/2017/05/26/devaneios-de-uma-noite-de-sexta-feira]

Telstar

Meu nome é Marcel. As coisas eram tranquilas onde cresci. Ao menos naquela época. Foi em Guaiatu, no interior de São Paulo, nos anos 70. Conhece? Imagino que não. Rapaz…não que a cidade ainda seja tão pequena hoje, mas naqueles dias eram só quatro ruas e umas duas ou três dezenas de casas. Além disso, o obrigatório: a prefeitura, uma escola, uma velha igreja, uma delegacia, um bar, um consultório médico, um barbeiro que fazia as vezes de dentista e um campinho pra jogar bola, que o povo aproveitava para também fazer bailes. O resto era mato mesmo. Mato e bicho.

*

Meus melhores amigos eram a Juliana e o Carlinhos. Juliana não gostava de brincar de boneca com as irmãs ou as outras meninas, preferia jogar bola com a gente. A mãe não gostava muito disso, mas não chegava a segurar a filha em casa. Mal terminava o almoço, ela pedia a benção ao pai e saía para nos encontrar no terreno baldio ao lado da igreja, onde já a estaríamos esperando. De vez em quando uma das senhoras mais velhas, daquelas que viviam rezando, passava na frente do terreno ao sair da reza e ficava olhando feio pra gente do início ao fim do quarteirão, mas o padre mesmo nunca disse nada. A questão é que não conseguíamos jogar no campinho. Lá eram onde os meninos mais velhos e os adultos jogavam, e eles davam cascudos na gente se tentássemos jogar junto. Como nenhum dos três gostava de apanhar, preferíamos brincar assim, separados, do lado da igreja. A cruz fazia uma sombra que nascia bem do lado do terreno e terminava a tarde toda esticada sobre a linha do gol.

A nossa bola preferida era a que Carlinhos tinha ganhado de presente de aniversário naquele ano. Tinha se tornado o xodó da vida dele, dormindo abraçado com ela todas as noites. Eu até ficava envergonhado da minha velha bola, mas ele dizia que não era para se importar com isso. A dele, bonitona, era uma Telstar da Adidas. Tinha sido a bola oficial da Copa de 70. Seus pais tinham ido comprar na capital para o presente de dez anos de Carlinhos. Ele tinha passado o mês anterior inteirinho ouvindo cada jogo da Copa, não só do Brasil como de todas as outras seleções, inclusive chorando junto com os pais quando fomos campeões. Depois que a seleção já tinha desfilado em Brasília e todo mundo tinha seguido com a vida, ele ainda estava lá, lembrando de cada lance e da respectiva narração. A memória dele sempre foi melhor que a minha. Ficava chutando pela casa a velha bola de couro já comido que tinha herdado do irmão mais velho, quebrando pratos e portas de armário enquanto fingia ser o locutor da Bandeirantes narrando o segundo gol de Jairzinho na Thecoslováquia. O pai até escondeu a bola uma, duas, três vezes, mas Carlinho sempre achava de novo e voltava a brincar dentro de casa. Encheu tanto o saco dos pais, querendo imitar Pelé até na hora da sopa, que seu pai uma noite lhe pegou no colo e, sem elevar a voz, propôs um um trato.

“Carlinhos, meu filho. Se a gente lhe der de aniversário a tal da bola da copa, a importada, você promete que deixa a gente em paz, brincando apenas lá fora?”

“Sim! Sim, pai.” – Todos os dentes dele, de leite ou permanentes, estavam à mostra.

“Tá certo. A gente compra então. Mas no dia que eu chegar em casa e lhe encontrar brincando dentro de novo, já sabe, né? Rasgo a bola com facão e jogo fora. Importada, nacional, seja qual for.”

Isso não chegou a impedir que ele brincasse com o novo presente em casa, mas Carlinhos foi esperto ao menos para não quebrar mais nada. Logo ao ouvir que um adulto tava entrando, ele largava a bola, deitava de bruços na cama e fingia que estava estudando.

*

Uma tarde, os três para variar estávamos brincando. Eu no gol, Carlinhos e Juliana brigando pela bola. Quem roubasse e fizesse o gol em mim marcava ponto. Pode parecer engraçado que Juliana estivesse na linha, e nao eu, mas ela sempre foi melhor de jogo que eu. Uma hora Carlinhos, tendo dado um drible em Juliana, cortou para o lado e deu um bicão. Eu não tive coragem de pegar, só fechei os olhos e protegi a cabeça. Nem tinha aberto ainda os olhos quando ouvi um “cléin!” bem alto de vidro quebrando. Todo mundo prendeu a respiração. Quando finalmente abri os olhos e levantei devargazinho a cabeça, vi que Carlinhos e Juliana estavam brancos. Me virei. Um dos vitrais do fundo da igreja estavam quebrados. Os três fizeram aquele som de puxar saliva que criança faz quando sabe que ferrou tudo.

“Puta que pariu!”, soltei.

“E agora, Carlinhos? O padre vai te matar!”, Juliana disse.

“O padre? Tô preocupado é com o que meu pai vai fazer comigo, carái!” (Carlinhos evitava falar palavrão em frente a Juliana, pois o pai o tinha educado assim. A situação, no entanto, o pedia). “Porra, porra, porra, e agora? Ai, meu Deus, ai, meu Deus.”

Carlinhos paralisou. Parecia prestes a chorar quando me veio uma ideia brava e corajosa.

“Ei. Porque você não vai lá dentro, pede desculpas pelo vidro e então pede de volta a bola?”

“Tá louco? Já viu como é lá dentro? Todo escuro? Tenho medo. Não gosto de igreja.”

“É simples. Fala que seu pai vai pagar o conserto.”, eu disse.

“É, Carlinhos, fala isso. Para de chorar e age como homem.”, Juliana entrou para o coro.

Carlinhos não ouvia a gente e já ia embora, desconsolado, balançando a cabeça.

“Vai ficar sem a sua bola, então? Sem a sua Telstar?”, eu perguntei.

Carlinhos parou no meio do passo.

“Não posso ficar sem minha Telstar.”

“Não, você não pode, Carlinhos.” (Pensei em dizer também “Como eu e a Juliana vamos ficar sem a sua Telstar?”, mas não quis parecer aproveitador naquela hora.) “Vai tomar uma atitude em cima disso, então, porra?”

“Sim! Vou. Vou sim, carái. Vou voltar e falar com o padre.”

“Sim, você vai voltar e falar com o padre.”

“E você também vai, Marcel.”

“Hein?”

“Sim, você vai. Não vou levar a bronca sozinho.”

“Como assim? Você que chutou! Eu não vou.”

“Você tava no gol. A bola era sua. Não pegou porque não quis. Agora vai junto. Aliás, na verdade, acho que era para você ir sozinho. O vacilo foi seu.”

“Nem vem. Você chutou alto demais. A culpa é sua.”

“Como você sabe que altura chutei se você tava de olhos fechados?”

“…”

“Vão os dois. Eu fico aqui do lado de fora, porque não tenho nada a ver com a história.”, Juliana disse.

“Não! Vamos os três. Tamos juntos ou não, carái?”

“Não vou. Vão vocês dois. Sou menina e vou ficar do lado de fora.” Diante desse argumento inapelável, os dois abaixaram a cabeça.

“Resolvido então. Vamos os dois.”, eu disse, por fim.

“Mas, Marcel, você já viu a cara do padre!?”

“Que tem a cara dele?”

“Minha prima se casou aqui na igreja. O padre me dava medo. Parecia o vampiro, do cinema. Falava lento, sabe? E as mãos dele pareciam tremer. E tinha uns olhos…”

“Deixa de besteira. Isso é coisa de criança. Vamos lá os dois.” Falei assim pra parecer macho, mas a verdade é que tava morrendo por dentro.

“Mas foi você que chut…”

Não teve jeito. Tive que pegar no braço dele e levar. Eu sentia medo, mas, se estavam os dois juntos, o cagaço diminuía. É sempre melhor estar com os amigos nessas horas. Chegamos junto à porta pesada de madeira. Olhei para Carlinhos, que finalmente pareceu recuperar um pouco da cor do rosto. Ou isso ou eu estava com tanto medo que já não via as cores direito. Ele respirou fundo e deu três batidas na porta. Bum. Bum. Bum. Cada batida, eu me cagava mais. Ninguém respondeu. A igreja podia estar vazia. Nesse caso, não teríamos que levar bronca de ninguém naquela hora, só mais tarde em casa, quando Carlinhos falasse que perdeu a Telstar. Aí eu já não estaria mais junto. Tava respirando aliviado, até que a porta abriu. Meu coração disparou. Não parecia ter ninguém ali que a tivesse aberto.

Dei um pulo para trás quando enfim ouvimos uma voz sair lá do fundo. Parecia mesmo a de um vampiro do cinema, meio tremida.

“Foram vocês que quebraram a janela, meninos?”

*

Ouvimos os ecos da pergunta do padre virem e voltarem, até que o ar ficou parado, sem que nenhum dos dois tivesse respondido a pergunta.

“Bom…não foram vocês?”

Carlinhos e eu nos olhamos. Eu já estava prestes a abrir a boca quando o padre falou antes.

“É que…”

“Entendo. Não foram vocês. Sinto-me grato. Odeio quando as crianças não assumem seus erros e pecados.” Levantou a sobrancelha direita enquanto falava. “Posso, portanto jogar isso aqui fora, não?”

Nos revelou a mão que até então escondia por trás da batina. Sobre ela, a Telstar. Carlinhos deu um salto.

“Não, seu padre! Desculpa! Fomos nós dois.”

“Isso, seu padre. Fomos nós que chutamos. Bom, na verdade ele chutou, eu só es…”

“Como assim? A culpa é sua, eu já disse! Se você não fosse tão bich…”

“Meninos! Silêncio. Silêncio.” O semblante vampiresco do padre se alterara. Parecia mais terno. Quase familiar, como o de um avô que sorri quando recebe o neto em casa. “Venham, venham. A casa de Deus não é local para disputas, ainda mais entre crianças como vocês.”

Ele se virou e seguiu em direção ao altar. Em momento algum soltou a bola. Segurava-a consigo do lado direito. Eu e Carlinhos nos olhávamos, dando os primeiros passos naquele ambiente escuro, talvez só um pouco menos escuro agora pelo facho de luz que entrava pelo vitral quebrado. Um sabia o que o outro estava pensando: e se apenas pegássemos a bola e voltássemos correndo, sem nunca mais brincar ali no terreno ao lado? Isso passava não só pela minha como certamente pela cabeça dele também, mas nenhum dos dois teve coragem. Seguimos em frente obedientemente.

Ele puxou uma cadeira que ficava ao lado do altar e sentou-se nela com a bola no colo. Ordenou que os dois se sentassem no primeiro banco, lado a lado, em frente a ele.

“Já tinha visto várias vezes vocês brincando aqui do lado. Também tem uma menina, não? Ela não estava com vocês hoje, por acaso?”

Nenhum dos dois respondeu. Ele era até gentil, mas os dois se sentiam amedrontados demais naquele ambiente para dar qualquer pio.

“Hm…sabia que eu tenho uma grande admiração pelas atividades esportivas?” Ele falava isso não olhando para nós dois, mas para a luz que entrava pelo vitral. Aos meus olhos, aquilo era bonito. Podiam deixar a igreja daquele jeito. Ficava com mais cara de casa de gente. “Admiro bastante os esportes, crianças. Acho que isso gera adultos fortes, saudáveis para a comunidade. Pena que eu não tenho mais idade para isso. Jogava bastante com a idade de vocês, imaginam? Há há…”

“Um-hum.”, foi o máximo de que fui capaz.

“Ah, sim…era um grande jogador. Hoje, com a minha velha carne, seria um desastre. Por isso sempre apoio as crianças aqui a jogarem. O que eu não posso mais fazer, elas fazem por mim. Também por isso nunca reclamei com vocês aqui lado. Sempre soube, evidente. De vez em quando espiava vocês jogando, daqui de dentro.”

Eu e Carlinhos, ao saber disso, nos olhamos. Não sabíamos o que tirar disso.

“Os coroinhas…dou muito estímulo para eles. Sempre os presenteio com bolas. Toda vez que um deles faz dez anos, meu presente é uma bela bola de futebol. Essa aqui – naquele momento, segurou a Telstar de Carlinhos com uma das mãos, admirando-a que nem os atores no teatro adoram fazer com caveiras – esse belo modelo, também foi um presente, não? Dos seus pais, imagino?”

“Sim, seu padre.”

“Muito bem. Você é de uma boa família. Já pensaram em entrar para o grupo de coroinhas? Podemos precisar de jovens como vocês. Não é só obrigação! Vejam…todos jogam bola juntos. Saibam, a maioria é pobre, uns pobres-diabos que aparecem aqui do nada, sem família, sem conhecidos. Sei que vocês são da região, de famílias respeitadas. Seus pais vêm aqui todo domingo. Mas não se interessariam em conhecer os outros garotos?”

“Pode ser, seu padre…”, Carlinhos disse. Senti que ele falava aquilo mais por submissão, e por o padre estar com a Telstar dele, do que por vontade real. Eu pensava o mesmo. Não era preconceito com as crianças pobres. Nós é que éramos muito tímidos mesmo.

“Bom, então posso contar com vocês? As crianças ficarão muito felizes em conhecer vocês. Já tem um time completo, mas vocês podem se dividir entre vocês para umas partidas de brincadeira.”

“Queremos conhecer elas sim, seu padre.”, eu disse. Dei a melhor interpretação de que era capaz. Ele só queria que a gente fosse obediente. Falei o que ele queria ouvir. Carlinhos olhou para mim meio surpreso e então consentiu.

“Sim, seu padre. Queremos sim. Vamos jogar bolas com elas.”

“Ótimo! Jesus fica muito feliz com crianças assim. Só tem uma coisa.” Nesse momento, ele abaixou a voz e aproximou a cabeça, como se fosse nos contar uma confidência. “É segredo. Porque algumas pessoas aqui de Guaiatu podem ter preconceito com crianças de fora. Então…” Aproximou mais ainda a cabeça das nossas. “…não contem a seus pais, tudo certo?”

Ambos consentimos.

“Perfeito. Aguardo vocês à noite. É depois da missa que as crianças jogam, para não chamar a atenção da cidade. Aqui no salão restrito que fica na parte de trás.” Nesse momento, apontou para o altar, ou o que ficava além dele. “Mas se lembrem de vir escondidos. Digam que vão dormir um na casa do outro.”

Estendeu a Telstar de Carlinhos para a gente, gentilmente. Carlinhos pegou a bola sem pensar duas vezes, enquanto falávamos “Obrigado, seu padre, obrigado” sem parar e saímos correndo em direção à saída. O velho padre apenas permaneceu nos observando, sentando.

Juliana nos aguardava impaciente do lado de fora.

“Por que demoraram tanto?”

“Ah, ele encheu nosso saco com uma história aí.”

Evidente que nunca voltamos. Nem continuamos brincando ali do lado. Não sabíamos o que o padre queria, mas a gente é que não ia cair naquilo. Na impossibilidade de usar o terreno ao lado da igreja, pois não queríamos mais ser vistos pelas velhas que viviam rezando e muito menos pelo padre que tinha assumido nos observar escondidos, fomos obrigados a nos misturar com os outros que jogavam no campinho. No início, odiamos. Carlinhos queria chorar de raiva toda vez que alguma outra criança, mais pobre, olhava a sua Telstar com ar de quem ia roubá-la. No fim, nunca aconteceu nada, e passamos a gostar cada vez mais das pessoas ali. Víamos o campinho como uma extensão de casa, e os vizinhos que também brincavam ali, como uma extensão da família. Depois de dois ou três anos, até tínhamos nos esquecido da história do dia em que quebramos o vitral.

*
Eu fui fazer faculdade na capital, enquanto Carlinhos e Juliana permaneceram. Eles namoraram e depois de um tempo, uns oitos anos depois de mim, decidiram sair de Guaiatu também. Eu estava com minha própria família em São Paulo, tentando equilibrar trabalho, crianças, a tal da vida urbana, quando recebi um convite surpresa. Fazia anos que não falava com eles. Tinha perdido o contato na correria, coisas da vida. Eles tinham decidido finalmente se casar na igreja, o que nunca tinham feito, para choque dos pais. E teria que ser na velha igreja de Guaiatu, para facilitar para a família de ambos. Fazia décadas que eu não voltava lá e sequer tinha notícias. No dia anterior à festa, esposa e filhos no carro, fiz a aguardada viagem de retorno.

O casamento foi incrível, como sempre imaginei que seria. Os dois tinham sido muito apaixonados desde a adolescência e assim seguiam. Num dado momento da festa, Carlinhos me puxou prum canto, no lado de fora, com dois charutos. Me ofertou um deles e acendeu ambos com um fósforo que estava no bolso do paletó alugado. Estávamos meio bêbados já, em especial ele.

“Marcel, meu querido Marcel. Reconheceu que a igreja não é a mesma de quando éramos criança?”

Eu estava tão concentrado na festa e em ver os velhos rostos, tentando reconhecer as pessoas, que nem percebi a mudança na arquitetura. Estava toda diferente.

“Parece outra igreja.”

“E é. É o seguinte. Tá com o coração em dias? Porque vou lhe contar agora algo que você nunca vai esquecer.”

“Hum.” Permanecia com o charuto em mãos, olhando para ele, intrigado.

“Você saiu daqui faz muito tempo. E eu a Ju permanecemos um pouco mais, você sabe. Então você talvez tenha ficado sem saber de algumas coisas que nós soubemos. Pouco depois que você saiu, o padre daqui, se lembra dele? Ele faleceu.” Só então as memórias, pouco a pouco no início mas depois rapidamente, caminharam de volta à minha mente. Culminando com o dia do vitral quebrado.

“Ele morreu?!”

“Pois é. Ataque cardíaco. Normal, já tinha mais de oitenta. O padre novo enviado pela diocese decidiu que a igreja estava muito velha, caindo aos pedaços. Nunca consertaram aquele vitral, para você ver!”, disse, gargalhando.

“E aí?”

“E aí que resolveram demolir tudo. Perda total, meu irmão. Puseram o prédio abaixo. E, bom…”

Percebi a hesitação dele.

“Fala logo, porra. Estou tendo uma síncope aqui já.”

“Se lembra das tais crianças do padre? As que jogavam bola? Os coroinhas?”

“Os tais coroinhas que seu pai depois disse nunca ter ouvido falar?”

“Sim! Eu até tinha esquecido da história. Veja, você talvez não tenha sabido porque a Igreja Católica abafou na imprensa, mas quem era daqui e morava aqui não teria como não saber…”

“Caralho, se você não disser logo, Carlinhos, pode ser o dia da sua vida, pode ser o dia que for, juro que vou lhe dar um murro, seu porra.”

Ele sorriu, lembrando-se das ameaças que fazíamos um ao outro quando moleques. Puxou fumaça do charuto olhando para cima, antes de continuar.

“Pois bem, meu velho Marcel. Não é à toa que os tais coroinhas eram sempre de fora. Sem família nem conhecidos, se lembra? Ninguém jamais estranhou a ausência deles. Por isso que não tivemos nenhum parente para comunicar quando achamos as valas, ao derrubar a velha igreja.”

“Valas?”

Foi então que ele quase colou o rosto no meu, falando baixinho. Olhos nos olhos.

“Acharam onze corpos de criança debaixo da igreja, cada uma abraçando uma bola. Foi assim que elas foram enterradas. O couro das bolas ainda estava lá, quase intacto.”

Deu dois tapinhas no meu ombro e voltou para a festa. Juliana já o chamava para algumas fotos.

Enquanto terminava o charuto, permaneci observando a cruz. Ela brilhava neon com as luzes do casamento. Só fui interrompido nos devaneios quando ouvi minha esposa gritar meu nome.

“Querido, o bolo do casamento acabou de sair! Vamos comer com as crianças?”

Tentei deixar aquela história de lado, fazendo-lhe o melhor sorriso de que fui capaz e me juntando à família. Apenas quando meu olhar se perdia em algum ponto indefinido e eu voltava a pensar nas onze crianças é que um dos meus filhos me perguntava se tava tudo bem. Eu respondia que sim, desconversando, enquanto repousava o copo de cerveja na mesa para que ninguém notasse minha mão tremendo.

[conto originalmente publicado em https://www.facebook.com/arquivosdeerebus/posts/344119242702091]

Vidas Breves de Artistas Feios (I)

1

[texto em progresso]

Uma breve introdução:

Jacques Bassot foi, admitam as versões oficiais ou não, o primeiro fotógrafo surrealista. Enterrado em 1962 numa lápide anônima em Paris, partiu desta vereda para outras ainda ressentido contra a Academia, que desde a década de 40 passara a inventariar as vanguardas europeias do século XX. Por mais diligentes que, comme il faut, os historiadores da arte tenham sido, não deixaram estes de cometer o impudor de ignorar o nome de Jacques Bassot. Seu registro não consta sequer nas notas de rodapé ou exaustivos anais dos catálogos de artistas franceses, tal como o compilado por Bresson, H. & Lindon, M. (ISBN 84723998-74). Faço aqui enquanto historiador amador a justiça necessária através de textos inéditos em língua francesa que descobri na Biblioteca Municipal de Pindorama¹. É esse o meu passatempo favorito nas razoáveis horas vagas propiciadas pelo meu trabalho diurno de taquígrafo do Fórum local.

Sem mais prolegômenos, resumo os dias de Bassot.

A (auto)descoberta:

Já um quarentão, isolado e ainda virgem, quando Breton, Buñuel e Dalí, inconsequentes em seus vinte anos, começaram a brincar de épater le bourgeois, Bassot sabia ter sido o surrealista original, tendo dado seus primeiros passos artísticos na adolescência. Sua introversão vitalícia o impedia de retratar modelos. Nem mesmo para amigos ou pais ousava mirar sua lente. Sem irmãos, só poderia ter a si mesmo como retratado. No entanto, via-se em espelhos e o que sentia era apenas repulsa: suas orelhas, não se contentando com a configuração um pouco mais comum, obstante já lamentável, de abano, protuberavam-se lateralmente como verdadeiras asas de xícara; suas sobrancelhas pareciam ter sido rabiscadas com intuito único de servir de contraponto frondoso ao seu enorme nariz; a extremidade deste, por sua vez, estendia-se a ponto de encobrir a parte superior dos lábios; os olhos mortos não faziam jus à intensa vida interior. Todo seu triste aspecto era ainda complementado com um severo caso de dermatite, que fazia suas bochechas e testa viverem com textura digna de tijolo.

Amante do belo e dos retratos, e em sua timidez, solidão e feiura incapaz de unir ambos, o jovem fotógrafo descobriu num lance do acaso o expediente que viria a adotar por décadas. Sua mãe trabalhava em uma loja de perucas e seu pai era taxidermista. Ambos costumavam trazer sobras de seus trabalhos para casa, fosse para finalizar um detalhe após o jantar ou por simples tendência ao acúmulo. Como consequência, espalhavam-se por todos os aposentos tanto perucas inacabadas, de toda cor ou sorte, como também peles de animais, prontas para o imediato preenchimento mas que por alguma razão – imperfeições no revestimento, ou mera mudança nos caprichos do cliente – não viriam jamais a ser penduradas na parede de algum banqueiro.

Numa tarde, os pais ausentes, Bassot viu na mesa da sala a peruca roxa na qual a mãe estava trabalhando. Esta fora encomendada por um rico cliente que queria presentear a amante que conhecera no carnaval de Veneza. Num lance de mão que, a ausência de testemunhas à parte, faria questão de posteriormente descrever em seus diários como “furtivo tal qual Houdini” (“As paredes têm olhos”, rabiscaria na página oposta, no mesmo diário), o jovem fotógrafo tomou posse da peruca e gentilmente a pôs sobre a cabeça. Tendo imaginado então ouvir um ruído, olhou de súbito para a esquerda. Nada nem ninguém ali havia, isso é, além do espelho do toilette das visitas. Bassot nele se viu como gostaria pela primeira vez na vida. Jamais, até então, seus olhos tinham presenciado a forma que a alma já enxergava mas a realidade insistia em desmentir. Entretanto, ainda faltava algo.

¹ Busquei estabelecer uma razão oficial para a existência de tais documentos, que basicamente consistem em correspondências e cópias mimeografadas de páginas de diários, através de entrevistas diversas com os velhos funcionários da Biblioteca. Falhei, no entanto, em discernir a causa mais plausível. Incapaz de aplicar com sucesso a Navalha de Occam, listo aqui as duas possibilidades que me foram apresentadas, excluindo desde já as alternativas absurdas, com um só proponente (tal como a que o faxineiro octogenário mencionou, relativo a tudo ter sido fruto da imaginação particularmente aguda de um jovem de dez anos, que teria escrito os papéis apenas para impressionar a heterodoxa* professora de francês pela qual era apaixonado; a multitude de caligrafias me impede de sequer considerar como verossímil essa tese, já que, como se sabe, nunca houve em Pindorama alguém inteligente o suficiente para a execução de tamanha farsa, ainda mais aos dez anos).

Os primeiros a quem indaguei falaram em um trem em 64, o último a passar pela região, que teria descarrilado justamente no centro na cidade, matando cinco pessoas e levando ao fechamento peremptório da linha. A valiosa papelada estaria na carga, junto com queijo da Provença e garrafas de Bordeaux. O destinatário de tal tesouro francês jamais tendo sido identificado, a prefeitura, para garantir a integridade física dos itens, apropriou-se dos comes e bebes, legando os papéis à Biblioteca.

Passei dois meses seguro dessa tese, tendo-a inclusive comunicado com segurança a amigos e familiares, quando soube por outras vozes que a linha de trem de Pindorama estava desativada desde 51, e que, diga-se, jamais houvera um descarrilamento no centro, de forma que a tese anterior só poderia infundada. Perguntei-lhes qual seria portanto a origem dos misteriosos papéis, que dispunham de selos ao que tudo indica genuínos e palavras na grafia anterior à reforma de 1990 da língua francesa. Haviam de ser de legítimos, na minha opinião. Os novos entrevistados, indignados de eu ter antes acreditado na tese do descarrilamento, insistiam que os papéis tinham sido obviamente adquiridos por engano. Uma ex-primeira dama, numa excursão diplomática organizada pela Prefeitura de Pindorama a Paris, na década de 70 (constariam na trupe trinta e dois funcionários, quarenta e cinco familiares e tres cães), teria descoberto num brechó do oitavo arrondissement uma legítima mala de viagem Louis Vuitton, surrada mas íntegra. O prefeito então a teria adqurido e posto a compra sob a rubrica de gastos de viagem. A ex-primeira dama nem quisera abrir a mala na loja (“Louis Vuitton se reconhece, meus queridos, não pelo LV mas pelo cheiro”, teria dito). Chegando ao hotel, descobriram o inusitado conteúdo: papéis e mais papéis, e algumas perucas. Como a mala era oficialmente de posse da prefeitura, isso incluiria o seu conteúdo. Os documentos foram, assim, trazidos para Pindorama.

Descobri ainda posteriormente que as duas facções, a do trem e a da mala, formavam uma disputa tácita nos corredores da prefeitura. Os correligionários de uma probiam-se de interagir com os da outra em âmbitos que não fossem estritamente laborais (havia duas festas de fim de ano dos funcionários; duas rifas também; e, de certa feita, quando um jovem bibliotecário passou a namorar um rapaz da outra facção, tendo posto o amor, tal qual Romeu, acima das disputas epistemológicas, os dois foram descobertos e devidamente ostracizados. Hoje vivem juntos em Jundiaí e não querem saber de trens nem de malas). Os grupos evitavam também dividir suas teorias com estranhos, por suspeição. Fui convidado a me tornar membro por ambas, tendo sido informado de que “os segredos só me tinham sido abertos pela assídua frequência à biblioteca e aparência honesta de taquígrafo, e que agora eu havia de retribuir.” Tendo recusado, sem mais, o convite para admissão tanto em uma ou como na outra, passei a ser silenciosamente hostilizado pelas duas.

* Perguntei ainda ao faxineiro em que exatamente constaria a heterodoxia da suposta professora de francês. Ele me disse que ela, além de ser linda e curvilínea, era de uma ingenuidade ímpar com os jovens alunos, em sua maioria garotos, cuja idade ia da pré-pubescência, nove ou dez anos, ao início da vida adulta. Tendo sido criada ela mesma em um lar onde o carinho andava de mãos juntas com o recato, ela não via estranheza em técnicas como pôr os garotos no colo para lerem juntos as frases nos cadernos ou em aproximar bastante o rosto da boca de seus alunos para conferir a correta execução dos fonemas. Quando ela mesma não insistia em fazê-lo, seus alunos questionavam: “Mas, ma professeure, não é melhor garantir? E se eu estiver falando errado? Não quero passar vergonha”. Sorrindo ante a disposição inigualável que cada aluno apresentava, ela lá ia, deixando o ouvido bem próximo à boca de seus alunos. Desnecessário dizer que foi homenageada em diversos poemas ruins, buquês anônimos e minutos de onanismo, sempre culminados com um gesto francês: “oh-là-là!”.

A Cadeira (2) – Uma história impessoal

Lista fortuita de verbetes correlacionados:

1 – Cadeira: objeto inventado (2) pelo homem que permite um outro homem nele se sentar (3).

2 – Invenção: objeto, peça ou sistema artificial cujo intuito é, em geral, trazer satisfação (3) para quem a usa e lucro (4) para quem a inventa. A cadeira (1) é uma invenção.

3 – Sentar: ato físico que costuma ser satisfatório. Tendo nos desabituado enquanto espécie a passar longos períodos em pé, a mera contemplação (5) da ideia de assentar nosso peso sobre a bunda ao invés de sobre os pés é, via de regra, salivante. Consequentemente, a maior parte de nós investe horas na busca, escolha e aquisição de cadeiras (1).

4 – Lucro: é uma invenção, como a cadeira. Existe quando você recebe mais dinheiro do que gasta. Há múltiplas maneiras de se fazer isso; uma parcela significativa delas inclui a apropriação do trabalho (7) de terceiros (6). Algumas poucas pessoas, após terem tido lucro o suficiente durante décadas, ou herdado lucro suficiente de antepassados (8), permitem-se uma vida de mais contemplação (5).

5 – Contemplação: ato mental que pode ser satisfatório ou não. Alguns contemplam coisas muito abstratas. Outros, coisas práticas. Uns outros ainda contemplam todo tipo de coisa. Todos, no entanto, costumam concordar que o trabalho (7) atrapalha a contemplação. Algumas pessoas que contemplam já contemplaram bastante as causas que levam à falta de tempo para contemplar. Uma das razões a que chegaram é que contemplar não costuma trazer lucro (4). Tendo contemplado essa razão, alguns contempladores passaram a desejar que mais pessoas, dentre as quais eles mesmos, tivessem antepassados (8) com maior histórico de lucro (4).

6 – Terceiros: termo de origem jurídica, é portanto das palavras mais vagas possíveis. Para poupar a paciência do leitor, deixe-se apenas entender que são todos que têm o lucro do trabalho apropriados por outrem. Trabalho sendo substituível por ideias. Ou desejos.

7 – Trabalho: é uma invenção, como a cadeira. No entanto, enquanto invenções (2) majoritariamente trazem satisfação para quem a usa, o trabalho não raro traz satisfação apenas o outro; outro este que costuma ter bons antepassados (8). O lucro pessoal (4), que é a princípio um dos intuitos do trabalho, não raro permanece apenas como esperança (9).

8 – Antepassados: os que nos pariram ou adotaram. As leis (10) determinam que somos todos iguais. Porém, na prática, contempladores já determinaram que essa igualdade se verifica apenas dentro de subgrupos que contêm pessoas de antepassados semelhantes. Para os que dentro dessa sistemática se veem prejudicados, é ofertado o trabalho (7).

9 – Esperança: talvez uma invenção, talvez não. De toda forma, é aquilo que faz alguns de nós, inclusive contempladores, nos levantarmos todas as manhãs.

10 – Leis: uma grande invenção (2), que assegura a herança dos lucros (4) de antepassados. Costumava também garantir para todos os terceiros (6) que seu trabalho (7) seria menos inumano. São feitas por pessoas sentadas (3) em cadeiras (1), mas que às vezes se levantam para gritar mais alto que outras pessoas que também costumam permanecer sentadas mas às vezes também se levantam. Alguns contempladores (5) têm esperança (9) de que tudo isso mude. Esperam, porém, sentados (3).

[conto escrito no 2º dia do curso-laboratório De Repente É Bom Ter Um Objetivo, sobre a OuLiPo, realizado na Oficina Cultural Oswald de Andrade; revisado para o blog. As referências numéricas, se arranjadas adequadamente num fluxograma, formam uma cadeira, onde (1) está no topo do encosto e (9) e (10) são os pés dianteiros]

O blog deve ficar com pouca ou nenhuma atualização durante algum tempo. Comecei a escrever um livro, e pretendo focar toda a disposição criativa nele. Boa sorte para mim.

A Cadeira

A Cadeira. Madeira e aço. 2012.

Na conjunção do espaço[1] com o tempo[2], a obra[3] subjaz a ausência[4] do artista[5] à experiência subjetiva[6] do espectador[7]. Os signos[8] assim representados[9] trazem à tona[10] o vazio[11] contido em sua história[12].

[conto escrito no 1º dia do curso-laboratório De Repente É Bom Ter Um Objetivo, sobre a OuLiPo, realizado na Oficina Cultural Oswald de Andrade; revisado para o blog]

[1] A obra, a princípio prevista para instalação num cubículo, foi movida para um pavilhão de 10 x 10 m, mediante exigência do artista.

[2] Originalmente comissionada para 2010, a obra só se materializou em 2012, após múltiplas ameaças por parte do museu de cancelamento do edital. O artista, de boina e sobretudo, trouxe à recepção do museu em punhos próprios uma cadeira. Seu modelo era um de produção em massa facilmente encontrável em lojas de móveis.

[3] O artista previa, para desespero do diretor do museu, ficar sentado durante seis meses na cadeira, ali vivendo enquanto se alimentava, dormia e fazia todas suas necessidades, inclusive criando no meio-tempo novas obras, plásticas e/ou performáticas.

[4] Avisado que tal performance não seria aceita, o artista largou a cadeira no pavilhão e marchou museu afora, não voltando sequer para o coquetel de inauguração.

[5] Subsequentemente, avisou por carta à direção que ele faria questão de ainda realizar a performance tal como havia planejado, nem que tivesse que permanecer na calçada defronte ao museu, noutra cadeira do mesmo modelo.

[6] Pleonasmo inevitável de curadoria.

[7] Filas se formaram onde todos se indagavam quanto à simbologia ali contida. Os mais incautos chegavam a sentar na obra, tirando selfies que eram devidamente compartilhadas com a hashtag #sentei.

[8] Não-astrológicos, naturalmente.

[9] Isto é, pela cadeira sem dono.

[10] Ou ao menos assim o diretor do museu desejava.

[11] Vazio que se contrapunha ao não-vazio do artista sentado na calçada, apertando a mão de transeuntes e posando para fotos sem se levantar em troca de marmitas e sacolas plásticas, essas últimas utilizadas para contenção das necessidades fisiológicas.

[12] Que foi registrada em múltiplas versões: a oficial, do museu, e todas as outras, as orais, transmitidas aos colegas de trabalho e familiares por aqueles que trocaram dois minutos de conversa com o artista.

As Vozes

Nunca tinha ouvido vozes dentro da cabeça, até o dia em que uma me pediu para escrever essa história.

A voz me falava que coisas dementes tinham acontecido na nossa casa, onde eu morava com meu pai e meu cachorro. Disse-me que eu seria visitado por várias pessoas, todas mortas há tempos, que viriam para me mostrar através de visões o que sabiam. Avisou-me também que eu não precisava ter medo. A mim caberia somente registrar os relatos num caderno de capa amarela, para que os horrores passados na casa não permanecessem desconhecidos aos vivos. Isso me foi dito pela voz gentil, a primeira de todas que viriam. Tremi, pensei na possibilidade de estar enlouquecendo, mas no íntimo sabia que não. Sempre pensei que pudesse existir o além, apenas pensava que não seria por mim que ele buscaria fazer contato. Assumo ser idiota o bastante para me empolgar com o desconhecido e perigoso, mas não burro o suficiente para ignorar uma chance única quando ela aparece. Na dúvida, comprei um caderno de capa amarela – sim, a capa precisava ser amarela, a voz me dissera –, e deixei-o sobre o criado-mudo. Na primeira página, à lápis, anotei essas linhas que você lê.

Segui minha vida, fazia faculdade de administração durante o dia. Algumas semanas haviam se passado desde o primeiro contato e não houvera qualquer voz ou aparição no escuro, tampouco cadeira balançando, luz piscando, nada. Provavelmente eu tinha tido um surto, meu subconsciente devia estar querendo me dizer algo, quem sabe um complexo de édipo reprimido, sempre é o tal do édipo, dizem.

Uma noite eu estava sozinho na cozinha, à noite, jantando um macarrão ao molho sugo. Meu pai estava fora de casa. Situação perfeitamente comum, sempre foi tranquilo eu ficar sozinho. Costumava pôr músicas para disfarçar um pouco a solidão, mas nessa era apenas eu, o prato e o silêncio, com o nosso cachorro preso do lado de fora, nem latir ele latia. Ouvi então, num tom calmo, a voz de uma velha. Sim, vai ter que ser aqui mesmo, minha filha, abre as pernas, a bacia está pronta. Abre as pernas que já estou com a agulha limpa. Olhei em volta, obviamente não havia qualquer senhora, muito menos filha. No medo cheguei a gritar, perguntar quem era que estava ali, o que queria, mas sem resposta. Ao menos resposta para mim. Pois a voz continuou: não, não adianta, precisa ser agora, você sabe, o combinado era esse, o próximo pode ser seu, ele crescerá e se tornará um garoto lindo, um garoto lindo e branco, lindo e branco, mas esse é nosso, sete meses, era o combinado, é o melhor para todos. Sempre fui imaginativo, algo que achei que pudesse ser bom, quem sabe até proveitoso para a futura carreira profissional, mas naquele momento, meu deus, odiei, queria apenas ser opaco de imaginação, nada mais, e não houve jeito, pois meus pés já estavam molhados, como se eu estivesse dentro da bacia, e a voz da velha soava à minha orelha, como se ela estivesse apoiada nos meus ombros e falasse a centímetros, Sim, bem assim, a bacia já está com as ervas necessárias, alecrim, arruda e anis, é como está no livro, seu filho é sujo e precisamos limpá-lo, eu e seu pai sabemos o que é melhor para você, não adianta voltar atrás, filha, quem mandou ter um filho com aquele homem, aquele preto, aquele preto imundo, agora esse é nosso, você ficará feliz, nós ficaremos felizes. À minha frente estava lá ela, a filha, uma jovem, mais nova ainda que eu, de pernas abertas, e quem abria suas pernas era eu, eu era a velha, eu estava vendo o que ela viu sabe-se-lá em que década, e minhas mãos, digo, as da velha, que agora eram minhas, elas abriam a vagina da filha, e lá punham uma agulha enorme, sim, eu queria gritar, mas não conseguia, pois de mim só saía a voz da velha, dizendo abre mais, abre que não quero te machucar, só a criança. Eu queria parar de pôr aquela agulha mais e mais para dentro, mas não podia, pois não as controlava. O sangue passou a jorrar da filha, que gritava, e a velha, digo, eu, eu apenas pedia, quase cantava, como numa canção de ninar Dorme, dorme, meu bem, que a noite já vai passar, em minhas mãos saía o natimorto, o feto negro, ele caía na bacia, um ser desforme, que talvez não chorasse mas para mim chorava. Agora é a hora do ritual, que o sangue do filho, sendo o mesmo sangue do pai, derrame aqui, que do seu pai derramará. A filha gritava, ela queria fazer algo, mas estava prostrada, incapaz. Então as mãos da velha agarravam uma navalha e cortavam o pescoço do feto, o sangue jorrava, tornando a bacia um mar vermelho. Gritei e fechei os olhos. Quando os abri, estava na cozinha da minha casa, estava deitado de lado no chão. Não havia mais feto nem filha nem velha. Corri para o meu quarto, registrei tudo que pude no caderno amarelo, desse modo, desenfreado, não tinha como pensar nem como agir de forma mais útil. Apenas fechei todas as janelas de casa, tranquei as portas e dormi, ou tentei dormir.

Na manhã seguinte, mais calmo, acordei com meu pai perguntando para mim porque eu tinha espalhado o molho do macarrão em todo o chão da cozinha. Me xingou dizendo que eu tinha feito uma bagunça do caralho. Eu me limitei a responder que tinha sido o cachorro e saí antes que ele pudesse fazer mais perguntas ou imaginar se o cachorro poderia mesmo subir na mesa. Não tive capacidade de ir à aula nesse dia. Depois que todos já tinham saído passei duas horas no banho, tentando limpar o sangue do corpo. Não havia sangue para quem me visse de fora, mas por dentro para mim estava sujo, absolutamente sujo pelo sangue daquele feto. Ao final, enquanto me secava, olhando no espelho e querendo acreditar que, sim, a voz que ouvia saindo de mim mesmo era de novo a minha, as mãos que manejavam a toalha eram as minhas, ouço novamente a primeira voz, a que iniciou tudo. Essa foi só a primeira. Viva para saber e escreva.

Enquanto não sabia o que esperar dali para frente, minha única opção era a de seguir adiante. Descobri que odiava o que estava acontecendo comigo, e que provavelmente não suportaria outra visão. Tinha escolha? Provavelmente não.

Quem então era a velha da minha alucinação? Poderia não ter mais me indagado, poderia até ter fingido que nada daquilo tinha acontecido, mas os pesadelos não contribuíam. Claro, tive pesadelos. Tinha escolha? Provavelmente não.

Neles eu repetia e vivia novamente a cena, como a vi, como a vivi naquela noite na cozinha. De novo era a velha. De novo tinha o natimorto em mãos e derramava seu sangue. De novo acordava gritando sozinho na cama, que estava seca, porém eu mesmo me sentia encharcado. Não que tivesse me mijado. Eram a água da bacia e o sangue fetal que não abandonavam a minha pele. Em cada uma dessas noites, eu alcançava o meu caderno de capa amarela, e escrevia e escrevia. Punha em papel cada detalhe, palavra, tom de pele, derramamento de sangue que presenciara. Mas a verdade é não tinha nada de novo a acrescentar. Era sempre a mesma visão.

Num café-da-manhã, não resisti e perguntei a meu pai quem tinha morado na nossa casa antes da gente. Estávamos lá fazia apenas cinco anos, sendo que antes estava abandonada, até onde me constava. Ele respondeu que sabia apenas de uma família, que tinha morado lá nos anos 80. Pai, mãe e filha. O pai e a mãe eram bem mais velhos que a filha, poderiam ser até seus avós, todos tinham vontade de questioná-los quanto a isso, mas eles nunca permitiram haver intimidade com os vizinhos. Essa filha então fugiu de casa com trinta e poucos, sendo que jamais se soube para onde ela foi. O casal de idosos por sua vez morreu pouco tempo depois num acidente horrível. Ambos foram encontrados carbonizados no quintal, ali mesmo onde eles moravam. Onde eu moro. Perguntei, depois de minha espinha ter congelado, porque caralhos ele nunca tinha me contado essa história. Ele deu de ombros e respondeu, olhando para os lados, que achava tudo aquilo meio com cara de inventado. Perguntei quanto ao que aconteceu com a casa, se alguém tinha tido a coragem de morar aqui logo depois. Ele se resignou a fechar os olhos e se levantar para sair. Quando já estava na porta respondeu que não sabia de nada, mas que achava difícil o imóvel ter permanecido muito tempo vazio. As necessidades de habitação superavam qualquer superstição. Também disse que iria perguntar para os vizinhos mais velhos se sabiam de algo além disso.

O incidente inicial da visão na cozinha aconteceu em abril. Maio se passou sem maiores catástrofes, ao menos além dos pesadelos que àquela altura já haviam se tornado próximos de diários. Numa noite em junho, com medo de fechar os olhos no escuro do quarto – um temor que eu nunca tinha tido, nem mesmo criança, mas que as aparições do feto em minhas noites estavam me apresentando –, me levantei da cama e fui até a sala. Eram onze e quarenta e cinco. Meu pai, que não devia ter ideia do quão paranoico e demente eu me tornava, dormia. Já tinha pensado mais de uma vez em abrir o jogo para ele quanto a tudo que estava ocorrendo, mas nunca senti intimidade. Talvez nunca tenhamos sido próximos de verdade.

Da janela da sala, o quintal brilhava sob as luzes brancas e fosforescentes da rua de trás. Nos meus primeiros dois anos na casa ainda tinha o hábito de brincar de bola ali, até mesmo sozinho, mas desde que passara na faculdade não via mais graça. Lembrei-me da história que meu pai havia me contado, é claro. Foi inexplicável mas irresistível a tentação de, descalço, abrir a porta dos fundos e pisar naquele ambiente. O concreto que passou a arranhar os meus pés era o mesmo de sempre. Nada de novo naquele local, e sinceramente não sei o que poderia ter de diferente naquela noite. As mesmas duas bicicletas largadas – uma minha, outra do meu pai, e só agora me dava conta de que nunca tínhamos pedalado juntos –, as ervas crescendo sem que ninguém as podasse – sempre fomos horríveis em cuidar desses detalhes desde que mamãe morreu de câncer –, o tronco ancestral de bananeira que permanecia ali contra todas as intempéries. Já tinha estado naquele ambiente centenas de vezes, tanto de dia como de noite.

Desisti e olhei para o céu, curioso. Talvez visse ao menos a lua e algumas estrelas, para não perder a viagem. Gosto de astronomia. Assim que achei Marte no céu, no entanto, senti um odor diferente. Querosene. Hum. Lá fora? Não. Vinha de dentro. Meus pelos do braço se arrepiaram inteiramente, pois, ainda olhando para cima, não quis mais descer os olhos. Sabia o que poderia encontrar. Havia sentido a mesma vibração na pele que sentia cada noite, ao rememorar minha visão. Preferi fechar as pálpebras e conviver, por alguns segundos, apenas com o odor. Meu coração já estava disparado e eu me comportava como alguém que no cinema fecha os olhos porque sabe que vai levar um susto. Antes que apenas pudesse dar meia-volta e sair correndo, gritar, acordar meu pai, nem sabia mais o que poderia fazer, ouvi um grito dilacerante, no pé-do-ouvido. Na mesma voz que me abalava diariamente. A da velha. Abri os olhos imediatamente, esperando o pior. O rosto dela estava colado no meu.

Lá ela estava, nua, aquela pele horrível, pendente. Tudo em seu corpo era banha derretida, e ela olhava para mim, mesmerizada, doente, Vamos, é a etapa final do ritual, ela fugiu com ele, nossa filha, a puta fugiu com o homem preto. Façamos a nossa parte, é só o que falta. O ritual nos levará ao próximo estágio da vida. Só resta o toque das chamas, venha, será o nosso último abraço, meu querido, e jogava querosene em si, encharcando a pele pálida e doente, e então passou a jogar em mim. Foi só então que olhei para baixo. Eu agora era um velho.

Meu corpo era algo de que tinha nojo, cheio de perebas, pelos brancos, tudo enrugado, meus peitos caídos, minhas mãos frágeis e incapazes. A velha jogava mais querosene em mim. Eu sentia minha cabeça molhando, meus olhos sem conseguir enxergarem direito pela torrente. Eis que a velha me abraça, e eu só queria fugir, mas eu não era eu, eu era o velho. Meus braços a recebiam contra a minha vontade. Ela apenas sussurra no meu ouvido, com a voz rouca e molhada, É chegada a hora, e finalmente ouço minha própria voz, mais aterrorizante ainda de ouvir saindo da própria garganta que a da velha. Voz profunda e rouca, num cântico que eu jamais ouvira mas que agora na visão recitava como se todo dia o lesse, enquanto a velha acendia lenta e ritualisticamente um fósforo.

Que as chamas venham,

Nossa carne queimai,

Dela a pura alma libertai.

 

Que a cortesã se arrependa

Do desatino que causou,

Pois do destino não se livrou.

 

Que sua prole carregue a marca.

De delírios ela padecerá

Aguardai; a morte abraçará.

Ao fim do último verso, solta a velha o fósforo sobre nossas cabeças, e a noite se torna dia. Tudo brilha. Sinto as chamas consumindo cada membro. O ímpeto de fugir que antes existia foi substituído por dor, não sentia nada que não minha própria pele derretendo, enquanto a velha me abraçava mais e mais forte e a sua pele parecia se misturar à minha. Eu queria fechar meus olhos, mas os do velho tinham permanecido todo o tempo abertos, de forma que eu era obrigado a tudo testemunhar. Até mesmo quando, por entre as chamas, um dos olhos dela cai do rosto. Nós dois despencamos, sinto que não existo mais, apenas o vermelho do fogo, e dor, e escuro.

Acordei com sol no meu rosto e o meu cachorro me lambendo. O quintal era de novo o meu quintal. Sem lua, sem querosene, sem chamas. Meu corpo era o meu, e estava intacto. Abracei meu cachorro e chorei durante meia-hora, às seis da manhã. Apenas eu e ele.

Ao fim, lembrei-me do meu papel nessa tragédia do horror e anotei no caderno amarelo essas palavras que você lê, junto com o cântico do velho. Achei, enquanto escrevia, que pedaços da minha pele ainda caíam, revelando a carne queimada, trazendo-me todo aquele cheiro de volta. No segundo seguinte, eu piscava, e estava lá a mão novamente inteira.

Novamente tomei um banho longo. O sangue da alucinação anterior fora substituído por cinzas, queimaduras, uma sensação de que por mais fria que pudesse ser a água, não seria o suficiente, viveria com rosto, mão, pernas e torsos escoriados, um semihumano, uma aberração. O rosto no espelho, todavia, permanecia o mesmo. Jovem, saudável na medida do possível. Ao deitar, exausto, tentado a apenas permanecer em posição fetal e a tudo abandonar, recebo a visita da voz, a primeira, a gentil, que há algum tempo não me vinha com seus agouros. Essa foi a segunda. Espero que esteja prestando atenção em tudo que vê e ouve. Haverá só mais uma.

Por tudo que já tinha passado, aprendi nas semanas seguintes, da pior maneira, como o meu corpo reagiu aos dias mais negros da minha vida. Minhas unhas passaram a cair, assim como o cabelo. A minha pele tinha a cor e a consistência de farinha. Passava toda noite com os olhos vermelhos observando cada ranhura do teto do quarto, plenamente visíveis à luz acesa. O meu corpo pedia descanso e eu até aceitava repousar na horizontal, mas não tolerava fechar os olhos. Mesmo que não dormisse, a penumbra das pálpebras já era o suficiente para que tudo que vivi em segunda mão através das minhas visões voltasse à tona. Minha vida universitária também, é claro, sofria. Já nem ia mais às aulas fazia tempo.

Meu pai, que estranhava o meu estado há algum tempo e tinha me pedido mais de uma vez que eu fosse ao hospital – ele não tinha como ir comigo –, me encurralou numa noite. Jantamos, eu e ele, em silêncio. Apenas as garfadas e os mastigares de boca aberta – dele – ressoavam na cozinha. Terminei com pressa o meu jantar e já me levantava para levar o prato à pia, quando ele puxou meu braço. Mandou eu me sentar. Olhou sério para mim enquanto calmamente deixava os talheres sobre a mesa. Disse que iria perguntar só uma vez. “Filho. Você tem usado drogas?”. Respondi rindo que não, óbvio. Nunca faria isso. “Certeza? Não vai mentir para mim. Pó, pedra, nada?” “Não.” “Já viu sua cara, filho? É cara de doente. Cara de drogado.” “Pai, vai se foder, sei o que faço ou deixo de fazer, e garanto que não se trata de drogas”. “O que é então?”. Não respondi, pois já tinha largado o prato lá na mesa mesmo e saído para o quarto, batendo a porta.

Qualquer vontade que tivesse tido de me abrir para o meu pai já não existia mais. Poderia falar das aparições para ele, poderia lhe contar que tinha presenciado como os velhos que moraram aqui faz trinta anos fizeram um ritual de sacrifício com o feto da própria filha e que depois ainda vieram a se matar. Poderia lhe dizer sobre como eu tinha certeza de que isso ocorrera de verdade, não sendo meras alucinações minhas. Mas à essa altura, seja lá o que dissesse faria ele apenas pensar que, bom, se tratavam de drogas. E que eu estava louco e viciado e precisava ser internado.

Deixei a luz acesa e passei um bom tempo em pé observando o mundo da janela. Assistindo ao desfilar das pessoas que passavam lentamente na rua trazendo suas sacolas com pão e manteiga para casa, ignorantes de tudo o que acontecia fora de suas banalidades. Sem jamais serem capaz de acreditar que tão próximo delas havia alguém cuja noção de realidade se esvaía. Então deitei na cama. Num ímpeto, alcancei o caderno amarelo e passei a anotar nele tudo que me veio. Todas as possibilidades idiotas a que poderia recorrer para me salvar. Falar com a polícia: ridículo. Recorrer a um exorcista ou a um pai-de-santo: não conhecia nenhum, tampouco saberia o que falar. Quem sabe, fugir, virar indigente, dar ao menos o descanso ao meu pai de não ter mais um filho em casa que ninguém é capaz de ajudar. Cheguei então a procurar a minha mochila de viagem, mas a verdade é que não teria coragem de sair assim pelo mundo. Sou e sempre fui fraco. Por fim, joguei novamente o caderno no criado-mudo e me sentei num canto do quarto, com a cabeça escondida entre as pernas. Sonhei.

Vi uma moça branca de vinte e poucos anos fugindo num Fusca com um homem negro. A mesma do parto. Vi eles morando num sobrado, felizes. Talvez no Rio de Janeiro. Os dois na cama, transando, contentes, perfeitos. Sorrindo enquanto depois escutavam música em vinil. Ele trabalhando no mercado enquanto ela está grávida em casa. Ela tendo o filho, sem que ele estivesse presente, sem quase nenhum amigo para parabenizá-la e trazê-la para casa. Ela preocupada, cuidando do recém-nascido enquanto não tinha notícias do marido. A polícia batendo na porta e lhe contando que o haviam achado. Ele fora degolado na volta do trabalho e tivera seu corpo jogado num córrego. Ela chorando enquanto amamentava o bebê, contando carinhosamente para o filho de seu irmão, que antes mesmo de nascer já tivera o destino igual ao pai. Vi anos se passarem à minha volta enquanto ela cuidava do filho por conta própria. Ela passeando de mãos dadas com o garoto, já um pouquinho maior, mas ainda de fralda. Um colega de trabalho, gentil e observador, se aproximando dela. Numa noite, o filho dormindo na casa de um amigo de escola, vi seu colega a recebendo em seus braços. Reconheço-o agora. Ele é meu pai, e nunca tinha me contado que não era o meu pai biológico, nossas peles e traços sendo tão parecidos. Não sei o que pensar e não tenho tempo agora. Já me reconheço no que vejo. Vejo momentos que já lembro de ter vivido. Somos nós três, eu com seis, oito, dez, quinze anos. Vejo agora ela doente de câncer. Ele ao seu lado chorando e prometendo que ia cuidar de mim como fosse dele.

Enquanto vejo a mim mesmo no quarto do hospital ao lado dela, sem cabelos, percebo sons que não fazem parte da imagem. Sons de passo, sons de madeira. Cada vez mais me distraio do que me é apresentado. Nas minhas visões já estamos na casa onde moro. Vejo meu pai e eu tomando café-da-manhã juntos, um pouco calados, estranhando a ausência de uma terceira figura. Tenho mais e mais dificuldades de me concentrar – parece que estou acompanhado de algo que me faz mal. Percebo então que consigo agora fazer o que quero, como num sonho lúcido. Na minha casa em que sonho – tão parecida, tão igual à casa de verdade onde vivo –, é noite, e está tudo vazio. Estou na sala, sigo para o quarto. Vejo a mim mesmo sentado e uma figura à minha frente. Ouço sua voz. Não a reconheço nem a entendo. Ela fala no ouvido do meu eu sentado. Ela me castiga e me suga. Entendo finalmente que é esse o ser que tem me sugado, a voz que tem me impedido de viver, faz meses. Em minha mão direita vejo aparecer uma faca. Aproximo-me da figura escura e a esfaqueio por trás, ouvindo seu urrar. Termina o sonho. Volto à realidade. Abro então então os olhos.

À minha frente vejo meu pai. Estou abaixado, ele está em pé, com lágrimas nos olhos. O sangue escorre de seu abdômen, do rasgo imenso que fiz de lado a lado. Ele cai no chão, já desmaiado. Enquanto eu sonhava, e achava que me salvava, matei-o.

Ouço as vozes do velho e da velha, meus avós maternos que nunca havia conhecido em vida, e de quem agora entendo que minha mãe nunca falava, cantando juntos nos meus ouvidos:

Tudo que era esperado foi feito,

Seu idílio atravessado por um parto.

Unindo todos que do sangue compartilham,

Nadamos agora no mesmo lago.

Grito até que eles parem, até que o mundo pare. Não sei se suportarei. Grito até que minha garganta doa, caindo no chão. Quando fico sem ar, e não tenho mais como abafar o que ouço, noto que não há mais vozes. Apenas meu cachorro latindo lá fora como nunca o vi latir.

Com as mãos ensaguentadas, busco o caderno de capa amarela e pela última vez anoto essas palavras, borrando as páginas e espremendo a minha feia letra para caber tudo nas últimas páginas. Filho de uma maldição, perdi pai e mãe para o destino e com meus próprios dedos dei cabo do homem que cuidou de mim como um próprio, um pai cujo erro foi não ter me abandonado. Entendo agora que toda a minha vida foi seguir um enredo premeditado. Olho para o céu.

Espero que, após tudo isso, não tenham tardado a entrar em casa e resgatado meu cachorro. Também torço para que não ignorem o caderno quando entrarem no meu quarto. Pois, após ter preenchido todas as páginas, essa frase sendo a última de todas, busquei a faca no chão e me matei.

[conto originalmente publicado em três partes na página Arquivos de Erebus: https://www.facebook.com/arquivosdeerebus/posts/307162983064384]

O Jogo

Meu pai nunca gostou da ideia de ter uma arma em casa. O pai de Beto, meu amigo, não pensava assim, no entanto. E Beto sabia. O pai não a mostrava para ele, mas Beto entrevia, pela fresta da porta, ele polindo a arma, em algumas noites de sábado.

Tínhamos quinze anos, com diferença de poucos meses. Em casa, moravam só Beto e o pai. Era filho único, e a mãe falecera doze anos antes. Fora baleada por assaltantes que invadiram a casa deles.

Era uma noite de sábado. Estávamos na casa dele, o seu pai tinha saído. Jogávamos videogame. Chovia, e eis que a energia caiu. Beto procurou velas na cozinha, não achou. Comentou então sobre achar que o pai, por alguma razão idiota, podia ter algumas no quarto, junto a uma bíblia. Segui-o, cada um com celulares à postos. Claro que eles nos ajudavam bastante, eram inclusive melhores que vela para iluminar, mas não durariam a noite toda, em especial se não sabíamos quando a energia voltaria para carregá-los.

No quarto, ele mexia num criado-mudo enquanto eu fuçava o outro. Ao mesmo tempo em que eu gritei “Achei!” com as velas em mão, sorrindo para ele, ele me olhava sério. Tinha a .38 do pai em mãos.

Pedi para ele guardar a arma. Tinha aprendido com o meu pai a não brincar com isso. Ele falou “É, sei, é perigoso, mas só estou olhando. Nem deve estar armada. Gosto de como ela brilha com a luz do celular”. Ele estava fingindo que a apontava para o espelho, imitando uma cena de filme, quando o pai dele apareceu à porta. “Então vocês gostam de brincar de arma?”, ele nos perguntou. De terno, como ele estava, em frente à janela pela qual se via a chuva na cidade, e mais nada, ele parecia um senhor feudal, dono de suas terras e seus vassalos.

Paralisados, eu apenas segurava a vela recém-acesa na mão – tinha levado já os fósforos para o quarto – enquanto ele continuava apontado para o espelho, com os olhos fixados nos do pai, que eram gélidos. O pai se dirigiu lentamente até Beto e em um movimento firme tomou a arma de suas mãos. “Vamos brincar, já que vocês gostam disso”.

Meu desejo era de fugir, até talvez o fizesse se Beto também saísse correndo, mas ele apenas conseguiu descer as escadas, acuado. Segui-o, com o pai dele atrás de nós dois, arma em punho. Cada passo na escada de madeira ressoava por toda a casa. Na sala, ele nos mandou desligar os celulares, e disse para eu pôr a vela no centro da mesa redonda de vidro. Era a única fonte de luz. Ordenou também que nós dois nos sentássemos, depois de fecharmos cada uma das cortinas. Obedecemos, congelados.

Sem pressa, como em todos os movimentos dele, ele por fim sentou-se também, defronte dos dois. Deixou o revólver na mesa, próximo a ele. Com a mão direita revirou o bolso enquanto com a esquerda coçava o cavanhaque. Colocou duas balas na mesa, o vidro estalando com o choque de cada uma, que pareciam pesar quilos naquela noite. Uma bala aparentemente nova, a outra usada. Ele pôs a nova na arma, tomando para si cada segundo como senhor do tempo que era, sem urgência. Girou o tambor, olhando alternadamente para os olhos de cada um. “Já que gostam de brincar, que tal um joguinho de roleta russa?”.

Queria me levantar, dar um soco nele, imobilizá-lo. Ele era maior que cada um de nós, mas não maior que os dois juntos. Beto, no entanto, nada fazia nem parecia que iria fazer. Apenas olhava para baixo, começando a lacrimejar. A voz do pai dele nos dominava: “Sendo o mais velho, acho justo ser o primeiro. Não acham?”. Apontou a arma para a própria têmpora. Desejei primeiro que o disparar do gatilho fosse em vão, que houvesse apenas o barulho do martelo da arma sendo estalado. Logo em seguida, desejei que a bala saísse, sim. Odeio a mim mesmo e me castigo e penso nisso todo dia antes de dormir. Mas foi a verdade.

Só ouvimos o clique, nada mais. Quase deu para ouvir Beto suspirar, mas não tenha certeza se ele suspirou mesmo. Talvez soluçasse. As suas lágrimas desciam sem barulho.

O silêncio da sala, acompanhado pela fonte ancestral de luz que estava no centro geométrico do triângulo formado por nós três, nos fazia sentir num espaço eterno, onde mortes eram decididas assim, ao acaso, ao sabor do vento. O pai de Beto, em seguida, olhou para cada um. “Bom, agora é a vez de algum de vocês. Qual é o mais velho, para manter a regra?”. Nos entreolhamos. Eu sabia ser o mais velho. No entanto, nada disse. Beto também estava mudo, sabendo da verdade e sabendo que eu sabia da verdade. Nos olhamos, eu e ele, durante vários segundos, questionando-nos silenciosamente qual de nós seria o primeiro a abrir a boca. Estava prestes a admitir que era o próximo quando o pai de Beto bateu a mão na mesa, impaciente. “Caralho, se nenhum sabe, portanto que seja meu filho. Vamos passar de pai para filho essa brincadeira. Seguir o caminho do sangue. Justo, não acham? Filho cujo sangue é o meu. Não?” Aquele foi o único momento da noite em que houve algo no olhar opaco de Beto. Houve ódio, direcionado a mim e ao pai. Ele sabia que eu tinha permanecido calado, que deveria ser eu, mas eu fugi, fui fraco. O pai dele segurou a arma com o cano, gesticulando para Beto que segurasse a arma. Ele não levantava o braço, entretanto. O pai deu-lhe um tapa no rosto. “O quê? Não vai brincar? Está com medo?…bom. É a sua vez, pelo nosso acordo. No entanto, permanece assim. Imóvel. Patético. De você não esperava diferente. Sabe por quê?”. Beto olhou para ele como um animal olha para o leão prestes a devorar as jugulares de sua família: odioso em seu pavor, pavoroso em seu ódio. “Se você não tem coragem de puxar o gatilho, eu o faço por você.” Em um movimento de mão, o pai de Beto girou a arma. No segundo seguinte ele já a segurava corretamente, cano apontado primeiro para a têmpora e então frontalmente para a testa do filho. “De um filho que não é meu, nunca esperei atitude ou coragem. Não veio antes e não virá agora.” Ele puxou o gatilho.

Dei um salto com o estrondo e o clarão. Abaixei o rosto com os olhos fechados e estremeci quando a cabeça ensanguentada de Beto se chocou secamente com a mesa.

Despenquei no chão, rastejando debilmente para baixo da mesa. Fui capaz apenas de ouvir o som da arma sendo largada na mesa e dois braços fortes me carregando para fora, pelas pernas. Sua voz soava grave e profética. “Sabe qual era aquela outra bala? A usada? Você sabe, não, jovem? Foi a bala que matou a cadela da mãe dele, doze anos atrás, no mesmo jogo. Da mesma maneira. Estava escrito, jovem. Pus a arma na minha cabeça antes dela. Não veio a bala. Isso é predestinado, não sabe? Aquela bala tinha sido feita só para matá-la, aquela vadia. E agora, finalmente, doze anos depois de ouvir a verdade dos seus lábios, doze anos olhando para o filho ilegítimo toda noite e em cada uma delas querendo matá-lo. Outra bala igualmente divina realizou o seu propósito. Não é azar dos que se foram, meu jovem. É a mão de Deus guiando as nossas.”

Me jogou na calçada encharcada. Eu chorava, sentindo o sangue de Beto espirrado em mim, minha roupa manchada ainda pela chuva que tudo lavava. Minha última visão daquela casa foi o pai de Beto fazendo o Pai-Nosso enquanto fechava a porta, olhando para os céus e sorrindo.

conto originalmente publicado na página Arquivos de Erebus: https://www.facebook.com/arquivosdeerebus/posts/301597296954286

O Fã

Já sonhou em se encontrar com o seu escritor favorito? Eu já. Era o escritor de suspense que mais amava, o responsável por minhas noites mal dormidas, consumido por suas histórias. Havia devorado todos seus romances e contos. Cada inovação sua era seguida de mil plágios de autores menores. Cada enredo original era prontamente copiado em mil rascunhos mal feitos – e ainda assim, publicados! – onde suas cenas e soluções tão elegantes e macabras eram distorcidas em clichês, deus, quantos clichês. Há décadas que era o nosso rei, e apesar disso, ou, quem sabe, justamente por isso, era recluso como um leproso medieval. Nunca respondia emails de fãs. Nunca aparecia para autógrafos e feiras, mesmo as várias feitas em sua homenagem. Tudo que tínhamos era a mísera foto em seu livro; era o que nos permitia ao menos conhecer seu rosto – um rosto tão banal e ainda assim único para nós, seus devotos – e saber como ao longo das obras – um best-seller atrás do outro – seu cabelo rareava e seus olhos se demonstravam mais e mais opacos.

Qual não foi a nossa surpresa quando os cem membros mais antigos do fã-clube oficial, e apenas eles, receberam em seus emails um convite para o lançamento de sua mais inédita obra, com a presença de ninguém menos que, sim, o autor, em carne, osso e imaginação doente. Foi o suficiente para, nas três semanas que separaram o recebimento do convite e o evento em si, meu coração bater febril em cada noite, justamente quando mais queria apenas dormir para que o tempo logo passasse.

Na noite do lançamento, nos reunimos num teatro. Ninguém havia na recepção; apenas havíamos entrado e preenchido os lugares. O palco, além da cortina vermelha fechada, continha somente um par de velas. O convite anunciava o evento para as vinte e três horas; qualquer outra informação nos permanecia oculta. Não sabíamos o nome do livro, e se teríamos que pagar por ele ou pelo evento. Nos fora exigida somente a presença.

Às vinte e três em ponto, as luzes artificiais se apagaram. Naquele momento, a débil iluminação das velas mal era suficiente para enxergar a cor da cortina. Nossos corações coletivamente batiam numa sinfonia desordenada. Sem aviso ou preparação, uma voz começa a nos falar do sistema de som:

“Bem-vindos, meus queridos leitores. Meus amigos, meus irmãos. Boa noite.”

Todos se entreolhavam, buscando ser gentis, inclusive respondendo o boa noite, até mesmo tentando descobrir se o autor – conhecíamos seu rosto, afinal – não já se escondia no meio de nós. Seria um truque perfeitamente razoável. Não parecia, no entanto, ser o caso.

“Imagino que estejam ansiosos para o lançamento que lhes aguarda hoje. Bom, antes de tudo, agradeço pelas décadas de leituras fiéis. A vocês tudo devo. Acreditem em mim. Tudo.

“Talvez os mais atenciosos tenham percebido, todavia, como minha saúde se deteriorou ao longo dos anos. Esse fato não pôde escapar às imagens, devem saber. Jamais quis retocar minhas fotografias…assim, não seria difícil perceber como me tornei mais e mais emaciado. Cadavérico, até, diria. Bom. Apropriado para um autor do meu gênero, não?

“A verdade é que o processo de criar tantas histórias me consumiu. Alimentar vocês, meus donos. SIM, vocês são meus donos, acreditem, não passo de um escravo cuja obrigação moral é parir, PARIR, enredo atrás de enredo para vos satisfazer. É tudo que esperam de mim. Como tive que aguentar ligações e mensagens e cartas pedindo mais histórias, solicitando continuações, exigindo finais! Tanta expectativa, justamente de quem apenas deveria me deixar em paz, agradecer e seguir a vida, somente isso. Tudo que esperei de vocês foi respeito e silêncio. Nunca houve, é claro. Antes que duvidem…li cada pedido que foi me enviado, seja por qual meio tenha sido. Não queria, nem mesmo devia, mas não resisti…”

À essa altura, algumas reclamações em voz alta já partiam da plateia; alguns se levantavam, enquanto outros, elevando a voz, denunciavam ser tudo uma farsa. Os mais frágeis choravam, tristes de terem ofendido seu ídolo.

“Bom, depois de hoje não haverá mais cobrança. Presentar-lhes-ei com a minha obra-prima. E assim, finalmente, terei paz. Esse presente é a única forma como posso lhes agradecer, depois de tantos anos de relação íntima.

“Ah, sim. Um último adendo necessário. Estou gravando essa mensagem às oito da noite. Quando ela terminar de ser tocada nos alto-falantes, será pouco mais de onze, creio…espero que gostem da obra que agora, sem mais espera, lhes dou.”

As cortinas se abriram. Nada vimos, no breu. Podem então ter se passado trinta ou trezentos segundos de escuridão. Minha ansiedade estava a tal ponto que eu não media mais a passagem do tempo. Subitamente, todos os refletores iluminaram o mesmo ponto no palco. De início nada consegui enxergar, ofuscado.

Aos poucos, minha visão se acostumou.

Numa poltrona preta, isolada, estava sentado o nosso escritor. Inconfundível. Sua boca estava aberta. Quando finalmente consegui abrir os olhos por completo, entendi o que nos aguardava. No corpo do autor, em toda a sua glória solitária no palco, estavam lápis enfiados em cada um de seus olhos e uma caneta tinteiro atravessava de lado a lado a garganta. A tinta se misturava ao seu sangue coagulado no peito. Todos os seus dentes haviam sido removidos.

Abafada por gritos e surtos da plateia, emanava dos altos falantes uma gargalhada.

conto originalmente publicado na página Arquivos de Erebus: https://www.facebook.com/arquivosdeerebus/posts/309109252869757

Confissões

O boxeador está sentado, olhando para as suas mãos enluvadas. Sua frio.

– Será essa a última? Ou, mesmo sendo só uma, as últimas? Possivelmente a dele, provavelmente a minha. Não importa, a essa altura estou cansado demais para saber. Que a lona não tarde.

O médico, contemplando a janela do escritório e além, acende o primeiro cigarro desde a formatura.

– O meu lado humanista sabe que já morro aos poucos respirando e que esse cilindro só acelera o processo. O meu lado humano sabe apenas que tem pressa.

O homem foi preso enquanto o sangue da prostituta ainda estava quente e espalhado pelo quarto. Falou calmamente enquanto era algemado, em meio a gritos:

– Ela que pediu. Todas querem, com seus sorrisos, mas essa foi a única que pediu…ouvi a sua voz no meu ouvido implorando, e não fiz nada além de lhe dar a felicidade que buscava.

A senhora passou quarenta anos com o marido. Se separaram. Ficou mal, depois finalmente descobriu que gostava de sexo. Conheceu alguém vinte anos mais jovem que ela, trinta e cinco que o ex. Uma noite, ele dormia após ter fumado. Ela acendia as bitucas e só as bitucas, sem nunca ter fumado em sua frente.

– Durante todo o casamento, amei meu marido. Ele não me amou. Você, no entanto, me ama, enquanto eu não te amo. Roubo seu cigarro fumado e uso seu corpo. A sua tara pela minha carne mole ainda vai me matar.

A mãe, após ter deixado as crianças na escola, abriu o frasco de comprimidos. O marido tinha viajado a trabalho, como sempre viajava, como sempre viajava.

– Já tomei remédios que me fizeram bem. Outros me fizeram mal. Apenas peço que esse cure a doença da qual, sem ter adoecido, nunca sarei.

Saulo Acorda

Sem saber que acordava, Saulo encarou o teto, tremulante como as ondas cerebrais repletas de imagem que ainda ecoavam. Ao lado do despertador chinês estava o seu Homer Simpson, com testa franzida e gotas da excessiva cobertura da rosquinha a melar a superfície da mesa de plástico que fazia as vezes de criado mudo. Homer lhe observava com absoluta seriedade, perguntando porque diabos ele já saía da cama se o relógio nem sequer tinha disparado ainda. Não sou eu que tô me levantando, responde Saulo, deve ser outra pessoa, porque jamais sairia por pura vontade de onde estava até agora. O número que Jandira recitara no seu ouvido e que Saulo tivera o bom senso de registrar no celular era factual ou um produto da sua imaginação, não mais palpável que o denim da jaqueta que ela usava e estava prestes a remover no fim repentino do sonho? Anotou-o de novo, agora no que poderia talvez tomar como vida real, se é que se lembrava corretamente dos dígitos, para tentar conferir durante um momento no trabalho.

Aglutinado contra paredes humanas cuja formação, por maior que fosse o número de possibilidades que pudesse apresentar num dado momento, aparentava nunca se alterar de um dia para o outro, Saulo percorre fisicamente uma Metrópole passável como não-violenta no início do século XXI. Todavia, o que ele vê são múltiplos pequenos focos de ação cujos participantes são personagens de um filme de guerra etéreo, não inteiramente desprovido de alívios cômicos. Morteiros que disparam à abertura de semáforos, pelotões que perdem a formação no súbito aparecimento de emboscadas formadas por mendicantes ou maltrapilhos, helicópteros audíveis acima de toda a cacofonia que podem perfeitamente portar napalm ou executivos do ramo da Construção Pesada, ambos desenvolvidos sob rigoroso escrutínio para combater aquele que é o terror último de todos os envolvidos, o habitat natural.

O portal da Corporação, de vidro temperado semifosco com o logotipo de L invertido gravado a laser, fecha-se num pf surdo que o isola da civilização. O microcosmo o recebia com um largo sorriso asséptico, para gentilmente guiá-lo por algumas centenas de metros de corredores repletos de funcionários ensimesmados, revestidos com um piso aparentemente criado apenas para que o sapatear de quem ali passava se prolongasse até o infinito, uma câmara anecoica reversa.

Carlos, seu vizinho de expediente, concentrado no que devia ser uma planilha eletrônica intrincada demais para essa hora do dia, recebe Saulo com um bom dia inesperadamente vívido.

“Por que essa disposição toda? Festa privê com a namorada ontem? Ou talvez não tão privê assim?”

“Muito melhor, meu querido Sal. Olha isso aqui.”

“Ótimo, parece um puta sapato horrendo. Achou na rua?”

“Não, porque o primeiro sem-teto que experimentasse essa maravilha aqui teria ficado tão feliz que iria abraçar o seu cachorro na hora e chorar agradecido pela primeira coisa boa que a cachaça lhe trouxe. Além do cachorro, claro. Estou falando sério.”

“Inacreditável. Vou pôr meus fones de ouvido antes que também queira abraçar o sem-teto só para poder parar de ouvir o que você diz”.

“Escuta. Esse par de sapatos estava na minha casa. Usei durante as entrevistas de estágio da faculdade, e achei que tivesse perdido para sempre numa festa que dei. Acontece que eles só estiveram, durante cinco anos, pendurados atrás da geladeira. Não tenho ideia de como pararam ali. Ou de como nunca senti o cheiro deles. Acho. Aliás, isso explica muito. Mas esses anos, amigo, posso garantir, recebendo esse calorzinho ali o dia inteiro, deixaram esse couro tão macio que até acho que vou patentear a ideia.”

“Mas quem você acha que…”

Num átimo, Saulo vê um ponto brilhante através da janela de Carlos movendo-se rapidamente do além em direção à entrada do prédio lá embaixo, poderia ser um aeroplano voando perigosamente baixo, mas aqui tem tantos edifícios, não seria possível, será que se trataria de um…

O foguete explode ao que não devia passar de dois metros do chão e do portal. Saulo assistiu à toda a trajetória mesmerizado como um inseto incapaz de fugir ao seu destino diante da lâmpada, procurando idiotamente refugiar-se debaixo da mesa apenas no último segundo. Cautela inútil, visto que os reforçados vidros contêm quase todo a parcela do impacto que chega à sua sala. Os embasbacados funcionários da Corporação naquela manhã sofrem apenas o choque de achar que hoje tudo poderá finalmente ser diferente, e antes que consigam imaginar se isso será bom ou ruim, invasores começam a adentrar o prédio armados de fuzis, facas e balaclavas.

Com gritos masculinos e femininos em alturas variadas, o som do alarme e o guinchar distante dos sprinklers num intervalo dissonante e a percussão agitada que o exército invasor providenciava, todo o espaço corporativo foi dominado por uma sinfônica ruidosa cujo maestro decidira não ensaiar previamente. Todos começam a correr em direções únicas, chocando-se, xingando-se e por fim dividindo-se em três grupos, um que tenta entrar todo de vez na saída de emergência, outro, bem menor, que segue em direção à entrada com a esperança de não serem mortos pelos invasores, sejam eles quem forem, e, por fim, um formado pelos que secretamente acalentavam desejos bélicos dia e noite, que em menos de um minuto removem todos os periféricos eletrônicos de cima das mesas, virando-as para formar uma rústica barricada. Saulo olha para todos os lados, tem apenas um relance dos calçados novos-velhos de Carlos por entre o grupo que se aperta na saída, e resolve, solitário, engatinhar para um corredor que a essa altura continha apenas sapatos de salto de alto abandonados.

Tiros eram ouvidos, sem que se conseguisse facilmente associar quais gritos correspondiam a quais disparos. Saulo, escondido ao lado da máquina de xerox num canto do almoxarifado cuja localização sempre difícil agora evidenciava ser tremendamente vantajosa, passava suando pelos contatos da agenda do celular perguntando-se para qual valeria a pena ligar naquele momento. Bombeiros, não. Polícia, não a tempo de eu não morrer. O possível número de Jandira…quem sabe dar um oi antes do fim. Se for o número dela. Se ela ainda estiver viva. A essa altura, os ses não têm muito mais peso. Manda uma mensagem, aki eh saulo, tah viva? O barulho proveniente do escritório diminuía pouco a pouco, com ecos de passos indo e vindo sendo a única confirmação de atividade humana. Os invasores não devem ter chegado à barricada ainda. Saulo se indagava quanto a como os seus colegas poderiam se defender quando uma mensagem chega. Jandira, escondida lado vaso, cheiro ruim, hall, 5 banheiro fem, ultimo box, ainda viva, que porra tah acontecendo? Uma pequena explosão eclode no escritório. Não há como chegar ao Hall dos Banheiros no 1º andar sem passar pela sala onde agora ao menos um dos lados deve estar disparando muitas balas.

Saulo se esgueira colado ao drywall, com o celular em mãos, e põe metade da cabeça para fora. Nas mãos dos seus colegas entrincheirados, alguns dos quais já caídos, surgiram metralhadoras, com as quais conseguem manter os invasores cautelosos atrás de pilares e esquinas. De ambos os lados vêm tiros, não parecendo necessariamente errar seus alvos, no entanto ninguém demonstra estar de fato com medo ser alvejado. São dois lados de uma gincana onde as bolas da infância foram substituídas por cartuchos. Invasores e combatentes estão em igual número, com novos recrutas aparecendo de cada lado na eventualidade de alguém ser realmente atingido, tudo de forma a manter-se um equilíbrio primordial. Saulo responde a Jandira com uma mão só, a kminho, se protege. Tão afetuosamente apegado à parede quanto possível, vai lentamente em direção à saída, torcendo para que a sua invisibilidade social se mantenha mesmo numa situação tão heterodoxa. No percurso, atravessa o corpo de um dos invasores, morto mas com menos sangue à sua volta do que se poderia supor, e toma a sua arma para si.

Os corredores, sem entidades físicas visíveis, sejam elas vivas ou mortas, entretanto permeado por sons provenientes de embates seculares que poderiam estar acontecendo ali ao lado ou não, levam Saulo ao Hall dos Banheiros, uma solução orgânica da Corporação para lidar com o problema eterno da falta de toaletes disponíveis, uma das suas razões sendo a privacidade primeva que só um banheiro fornece para atos como dormir, chorar, usar a internet e até mesmo algumas funções fisiológicas.

Saulo arromba a porta do 5º banheiro feminino do Hall com um chute à moda americana, apontando logo em seguida a arma, que nunca antes usara, para dentro. Nenhuma alma. Procede até o último box, porta fechada. Alguém aí? Sem resposta. Jandira? Jandira? Vim para lhe salvar, meu bem! Bate na porta até concluir que ela provavelmente não está acordada e, sob o risco de machucá-la entrando de maneira forçada, atira na fechadura do box ao lado, entra e sobe no vaso para ver por cima.

Vazio. Só um celular boiando na água. Antes que perceba, uma multidão invade o local, colegas de trabalho, soldados, fotógrafos, repórteres, curiosos, Carlos, até Jandira!, para lhe conter, tomam sua arma, algemam-no, registram sua cara de imbecil, colocam um saco plástico preto na sua cabeça e o levam embora para sempre.

Na manhã seguinte, a Metrópole e a Corporação não tinham outro assunto no café.

(Conto que escrevi perto de 1 ano atrás; finalmente pondo no blog)